segunda-feira, 7 de julho de 2014

As Duas Narrativas Contraditórias da Criação do Genesis

Fontes e Origens do Pentateuco

Embora a tradição atribua a composição do livro de Gênesis à Moisés, os estudiosos bíblicos asseguram que, junto com os outros quatro livros restantes (perfazendo o que os judeus chamam de Torá e os estudiosos bíblicos chamam de Pentateuco) é "um trabalho composto, o produto de muitas mãos e períodos". Uma hipótese comum entre os estudiosos bíblicos hoje é de que a maior parte abrangente do Pentateuco foi composta amplamente nos séculos 7 ou 6 a.C. ( a fonte Javista), e que esta foi mais tarde expandida pela adição de várias narrativas e leis (a fonte Sacerdotal) em um trabalho que é muito similar ao existente hoje. As duas fontes aparecem em ordem reversa:   Genesis 1:1–2:3 é Sacerdotal e Genesis 2:4–24 é Javista.

Quanto ao contexto histórico que conduziu a criação da narrativa em si, a teoria que tem ganhado interesse notável, embora ainda controversa, é a "Autorização Imperial Persa". Ela propõe que os persas, após sua conquista da Babilônia em 538 a.C., concordaram em garantir à Jerusalém uma ampla medida de autonomia local dentro do Império, mas exigiram das autoridades locais que produzissem um único código de leis aceito por toda a comunidade. Isso implica que existiam dois grupos poderosos na comunidade: as famílias sacerdotais que controlavam o Templo, e as famílias proprietárias de terras que se compunham pelos "anciãos", e estes dois grupos estavam em conflito por muitos motivos, e cada um tinha sua própria "história das origens", mas a promessa persa de uma maior autonomia local para todos deu um poderoso incentivo na cooperação na produção de um único texto.

Estrutura das Duas Narrativas

A narrativa da criação é feita de duas histórias, grosseiramente equivalente aos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis (Lembrando que não existem divisões de capítulos no texto hebraico original). A primeira narrativa (1:1 à 2:3) emprega uma estrutura repetitiva de fiat divino e realização, então a sentença: "E houve tarde e manhã, o ...ésimo dia" para cada um dos seis dias de criação. Em cada um dos três primeiros dias há um ato de separação: o primeiro dia a luz se separa da escuridão, o segundo dia as "águas superiores" das "águas inferiores" e no terceiro dia a terra do mar. Em cada um dos três dias seguintes estas separações ou divisões são povoadas: no quarto dia  a escuridão e a luz são povoadas com o sol, a lua e as estrelas, no quinto dia os mares e céus são povoados com peixes e aves, e finalmente as criaturas terrestres e a humanidade povoam a terra..

As duas histórias são mais complementares do que  sobrepostas, com a primeira (a história Sacerdotal) preocupada com o plano cósmico da criação, enquanto que a segunda (a história Javista) se focando no homem como cultivador do seu ambiente e como um agente moral. Existem paralelos significantes entre as duas histórias, mas também diferenças notáveis: a segunda narrativa, em contraste com o esquema organizado dos sete dias de Genesis 1, usa uma narrativa simples em estilo fluente que procede da formação de Deus do primeiro homem através do Jardim do Éden até a criação da primeira mulher e a instituição do casamento; em contraste com o Deus onipotente de Genesis 1,criando uma humanidade como deus, o Deus de Genesis 2 pode tanto falhar como ter sucesso; a humanidade  que ele cria não é como deus, mas é punida por atos que a levariam a se tornar como deus (Genesis 3:1-24); e a ordem e o método de criação diferem entre si. Juntas, esta cominação de caracteres paralelos e perfis contrastantes apontam para diferentes origens dos materiais em   Genesis 1:1–2:3 e 2:4b–3:23, muito embora eles tenham sido elegantemente combinados.

As narrativas primárias em cada capítulo são unidas por uma "ponte literária" em  Genesis 2:4a: "Estas são as gerações dos céus e da terra quando eles foram criados". Isto ecoa a primeira linha de Genesis 1: "No Princípio Deus criou os céus e a terra", e é revertido na frase seguinte Genesis 2:4b: "... no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus". Este verso é uma das dez frases de gerações(do hebraico תולדות‎ tôledôt) usadas através do Genesis, que providenciam uma estrutura literária ao livro. Elas normalmente funcionam como cabeçalho ao texto que vem depois, mas a posição desta, a primeira das séries, tem sido assunto de muito debate.

As duas tabelas abaixo mostram as duas narrativas bíblicas da criação comparadas. Para tanto utilizei, como referência, a Bíblia de Jerusalém:


Primeira Narrativa (Gênesis 1:1-2:3)

Segunda Narrativa (Gênesis 2:4-25)
Gênesis 1:25-27 (Humanos foram criados  depois dos outros animais)

Deus (Elohim) fez as feras segundo sua espécie, os animais domésticos segundo sua espécie e todos os répteis do solo segundo sua espécie, e Deus (Elohim) viu que isso era bom. E Deus (Elohim) disse: Façamos o homem à nossa imagem... Deus (Elohim) criou o homem à sua imagem.




Gênesis 1:27 (O primeiro homem e a primeira mulher foram criados simultaneamente)


E Deus (Elohim) criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus (Elohim) ele o criou, homem e mulher ele os criou.
Gênesis 2: 18-19 (Humanos foram criados  antes dos outros animais)

Iahweh Deus disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda. Iahweh Deus modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse.



Gênesis 2: 18-22 (O homem foi criado primeiro, então os animais, e então a mulher foi criada da costela do homem)


Então Iahweh Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem. Iahweh Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem.



Referência Bibliográfica:
 

The Pentateuch A Story of Beginnings, Paula Gooder, T&T Clark Approaches To Biblical Studies, 2005

Nenhum comentário:

Postar um comentário