domingo, 12 de janeiro de 2014

Os precedentes históricos da Hipótese Documentária: Pesquisas sobre as Origens do Pentateuco


A pesquisa do Pentateuco até os nossos dias


1. Tradição. - Na época posterior ao exílio, Moisés passou a ser considerado o mediador ou o redator da lei do Pentateuco, recebida de Deus, e isto ocorreu particularmente depois que a lei deuteronômica já havia dado um passo neste sentido. Esta opinião é documentada a partir do século V a.C. (Ml 3,22; Esd 3,2; 7,6; 2Cr 25,4; 35,12). O Novo Testamento pressupõe que Moisés tenha redigido todo o Pentateuco (Mt 19,7s; Mc 12,26; Jo 5,46s; At 15,21; Rm 10,5). Referências expressas se encontram, a seguir, em Josefo, em Fílon e no Talmude. A Igreja assumiu a tradição judaica de Moisés como autor do Pentateuco. Até o século XVII só raramente foi contestada esta teoria. Evidentemente surgiram sempre dúvidas expressas contra ela, mas não se pode falar que tenham sido uma investigação de sentido histórico. Orígenes se defrontou com as críticas de Celso contra a unidade e a origem mosaica do Pentateuco, enquanto outros santos Padres rebatiam dúvidas semelhantes da parte dos gnósticos. Na Idade Média, Isaac Ben Jesus (Gn 36,31 pressupõe a existência do reino de Israel), Ibn Esra e outros, e mais tarde Karl-Stadt, Masius, Pereira, Bonfrère e Hobbes, e no período subsequente também Peyrère ¹, Spinoza ², Simon ³ e Clericus ⁴, sobretudo, acrescentaram objeções isoladas de toda espécie, contra a autoria de Moisés. Não fizeram observações construtivas e que trouxessem real progresso. Deparava-se apenas com detalhes estranhos, sem que se buscasse um ponto de referência fundamental.

Constata-se, nesta altura, que o Pentateuco se apresenta na realidade como uma obra anônima sem indicação de autor e sem informação direta sobre a origem mosaica para todo o conteúdo. Deste modo, a tradição afirma, mais do que o próprio Pentateuco, sobre a proveniência deste. Somente algumas perícopes são atribuídas expressamente à autoria de Moisés, sem que isto, no entanto, corresponda necessariamente à realidade. Estas perícopes são:

o relato da batalha contra os amalecitas (Ex 17,14),

aquilo que se costuma chamar de Código da Aliança , (Ex 24,4),

o decálogo cultual (Ex 34,27),

a lista dos sítios dos acampamentos (Nm 33,2),

o "Deuteronômio" (Dt 1,5;4,45;31,9.24),

o cântico de Moisés (Dt 31,30)

A parte principal do Pentateuco, pelo contrário, não pretende ter sido redigida por Moisés, nem transmitida oralmente desde sua época. A partir do século XVIII uma série de pesquisas e argumentos decisivos e dos mais variados tipos vieram provar que esta constatação negativa corresponde à realidade. Para o momento, indicamos algumas das inúmeras passagens que sugerem uma época posterior a Moisés:

a) Estas passagens subentendem a instalação de Israel na Palestina: os cananeus estavam então naquela terra (Gn 12,6; 13,7). Canaã é chamada terra dos hebreus (Gn 40,15). A região a leste do Jordão é designada a partir da posição de quem se acha a oeste do Jordão, isto é, estando além do Jordão (Gn 50,10s; Nm 22,1; Dt 1,1.5)

b) Mostram-nos o autor distanciando em relação à época de Moisés: a fórmula até o dia de hoje (Dt 3,14;34,6 et passim), e não se levantou mais em Israel profeta semelhante a Moisés (Dt 34,10).

c) Pressupõem condições políticas da época posterior: o emprego do topônimo Dan, que data, no máximo, do estabelecimento de Israel na época dos Juízes (Gn 14,14; Dt 34,1); antes que os filhos de Israel tivessem rei (Gn 36,31); a lei relativa ao rei (Dt 17,14ss).

2. Tentativas de resolver o problema. - Se o Pentateuco não provém de Moisés, então se põe a questão de saber como teria surgido. Foi a partir das tentativas de dar uma resposta a estes problemas que se desenvolveram a pesquisa e a crítica do Pentateuco, que constituiu e constitui ainda hoje a parte mais considerável da ciência do AT. Devemos observar ainda que se trata de uma questão justa e necessária, e que são inevitáveis as tentativas de resolvê-la de modo o mais exato possível. A própria Exegese e a Teologia não podem prescindir delas.

O empenho em discernir cada uma das partes que entram na composição do Pentateuco e em determinar a época em que ele apareceu, bem como o de saber sua finalidade, deu origem a uma série de hipóteses, que funcionam como tentativas de solução. A pesquisa crítica teve dois precursores que logo foram esquecidos e não tiveram influência: o pastor B. Witter, de Hildesheim ⁵, que utilizou como critério de distinção sobretudo a alternância dos nomes divinos Javé e Elohim no Gênesis e reconheceu a existência de duas narrativas distintas da criação, mas não estendeu sua pesquisa a todo o Gênesis, e J. Astruc ⁶, que partiu igualmente da diferença dos dois nomes divinos, para distinguir no Gênesis a presença de duas fontes principais e de dez fontes secundárias que teriam sido usadas por Moisés.

a) A primeira hipótese dos documentos (Eichhorn, Ilgen) afirmava que o Pentateuco, do qual, quase sempre só se pesquisava o Gênesis, se originara de várias fontes ⁷. Segundo tal hipótese, o Pentateuco é composto de uma série de narrativas correlatas, que o último redator ou revisor utilizou como "documentos" formulados definitivamente, mas submetendo-os a uma revisão do conjunto. Contudo, esta hipótese se depara com dificuldades, quando passa ao estudo dos códigos legais.

b) A hipótese dos fragmentos (Geddes, Vater, e De Wette até certo ponto) parte do estudo dos códigos legais do Pentateuco. Estes códigos dão a impressão de serem fragmentos mais ou menos extensos, autônomos e independentes entre si, e de terem sido colocados uns ao lado dos outros no Pentateuco, sem uma vinculação interna. Com base nesta descoberta, procurou-se captar o processo de formação de todo o Pentateuco, partindo-se da elaboração redacional desses fragmentos legislativos e narrativos. Contudo, logo que se procure aplicar esta hipótese às secções narrativas, tornar-se quase impossível entender a existência da construção planificada e da cuidadosa ordenação de todo o conjunto, bem como a cronologia que lhe é correlata ⁸. 

c) A hipótese complementar (Ewald ⁹, até certo ponto; Bleek, Tuch, Frz. Delitzsch) procurou resolver o problema, admitindo que uma só fonte constitui o núcleo do Pentateuco, ou seja, o chamado documento básico [Grundschrift], eloísta e de composição unitária, que foi completado depois por elementos javistas. Ewald, cuja opinião se identificava essencialmente com a da primeira hipótese dos documentos, bem cedo se afastou da hipótese complementar e, como outros, passou a admitir duas fontes eloístas que teriam sido reescritas, fundidas e completadas por um autor javista. Ewald estabelece, assim, uma certa ligação entre a primeira hipótese dos documentos e a hipótese complementar (e semelhantemente Schrader).   
 
d) A segunda hipótese dos documentos (Hupfeld, Rieнм, Dillмann, Frz. Deliтzscн) admite a existência de três fontes preexistentes e originalmente autônomas: duas eloístas e uma javista, que um redator final refundiu e combinou. Depois que Riенм fez valer, mais tarde e quase universalmente, a tese defendida por De Weттe, segundo a qual o Deuteronômio é obra autônoma e distinta dos demais livros do Pentateuco, passou-se a ter uma base crítico-literária, na qual se admitiam quatro componentes primitivos e se determinava a ordem de sucessão das partes. Utilizando as abreviaturas hoje universalmente aceitas, teremos a seqüência: P (Priesterschrift, “Documento Sacerdotal”) – E (Eloísta) – J (Javista) – D (Deuteronomista) ¹⁰.

e) As pesquisas posteriores provocaram, em breve, fortes mudanças na opinião relativa à ordem cronológica destas fontes. Depois que Reuss* e Vaткe deixaram de considerar o documento conhecido pela abreviatura P como o mais antigo, e lhe atribuíram uma data bastante tardia, sua posição foi amplamente aceita, sob a influência das pesquisas de Graf, Keunen* e Wellнausen*. Este novo ponto de vista pode ser expresso como segue: J é o documento mais antigo do Pentateuco; P não se situa no começo da história da fé javista, mas pertence a um estádio bastante posterior. Deste modo, teremos a ordem de seqüência: J-E-D-P. Desde então, esta seqüência foi admitida quase universalmente na pesquisa posterior, como também sua datação, embora com certas hesitações, e recentemente, também com a tendência a admitir-se uma época mais antiga: para J o século IX, para E o século VIII, para D o século VII e para P o século V.

Desta opinião divergem sobretudo König, Orelli e Strack, entre outros, que consideram E como a fonte mais antiga e admitem uma data mais recuada: E teria surgido por volta de 1200, J por volta de 1000, D por volta de 700-650, e P por volta de 500 a.C.; Dillмann, Graf Baudissin* propõem a sequencia E-J-P-D e também uma data um pouco mais antiga: E, 900-850; J, 800-750; P, 800-700, e D, 650-623 a.C.: e Kaufмann, com a tese segundo a qual P seria a fonte mais antiga ¹¹.

f) Além de muitos estudiosos do AT, que a partir de então tem adotado a opinião de Graf, Kuenen e Wellнausen, não faltam aqueles que a rejeitam, modificam ou pretendem substituir a segunda hipótese dos documentos.

Devemos mencionar, sobretudo, as seguintes tomadas de posição: muitas vezes procurou-se defendera a unidade literária do Pentateuco e sua autenticidade mosaica. Assim, entre outros , Möller ¹², MacDonald ¹³, Jacoв ¹⁴, Aalders ¹⁵, Young* e Raвasт ¹⁶. Também Levy ¹⁷ e Wiseмan ¹⁸ procuraram argumentos que sirvam de apoio à tradição ¹⁹. Apesar da validade de suas considerações e observações no que diz respeito aos pormenores, tais opiniões em nada contribuíram para resolver o problema da origem do Pentateuco. Representam, em verdade, os inevitáveis movimentos de defesa contra a investigação crítica. Klosтerмann ²⁰ e Roвerтson ²¹ propugnam uma espécie de teoria da cristalização (Eissfeldт)*, segundo a qual as demais partes do Pentateuco foram-se agrupando paulatinamente em torno da lei mosaica, durante sua recitação em público.

Erdмann ²² e Daнse ²³ reprovam a opinião dos que admitem a preexistência de fontes circulantes, recusando-se a tomar como critério ²⁴ para isto a diversidade dos nomes divinos, e defendem uma espécie de hipótese complementar ²⁵.

Löнr ²⁶ admite que Esdras tenha compilado uma material que remontaria a Moisés. Seria, assim, o redator do Pentateuco. Deste modo renova, até certo ponto, a hipótese dos fragmentos.

Baseados nos estudos feitos por J. Pedersen para o conhecimento da mentalidade israelítica e ao mesmo tempo admitindo a hipótese de uma tradição oral que teria persistido até depois do exílio, Engnell ²⁸ e outros consideram como inconsistente e mesmo impossível a distinção entre as fontes. Também desta maneira de abordar a história das tradições, e mesmo abstraindo das concepções arbitrárias conexas, a respeito da história religiosa, é indisfarçável a preocupação em se manter dentro da tradição em face da crítica ²⁹.

Volz e Rudolpн ³⁰ rejeitam a teoria de uma fonte E. Enquanto Voltz considera E e P apenas como produtos de uma reelaboração de J, Rudolpн considera como independentes não somente P, mas também certos trechos de E, que ele, no entanto, interpreta como interpolações introduzidas em J ³¹. Também Mowinckel ³² se voltou ultimamente contra a hipótese de E como fonte autônoma. Em vez disto, considera o material como sendo ampliações e reformulações posteriores de J, feitas com base no material das variantes surgidas no decorrer do tempo. Deste modo, o Javista se transforma de invariatus em Javista variatus.

Para Winneт ³³, os livros de Êxodo e Números contêm uma tradição continuada que teria surgido no norte de Israel, sem a presença de outras fontes isoladas, e teria sofrido uma revisão antes do exílio (deuteronomista) e outra depois do exílio (P).

Em Cassuтo ³⁴, encontramos uma espécie de hipótese dos fragmentos. Segundo ele, o Pentateuco seria uma obra homogênea e originária da época dos profetas. Na construção dessa obra teria sido utilizada uma parte do material das numerosas tradições correntes em Israel, tendo sido ela reelaborada tantas vezes, que na multiplicidade e da multiplicidade, resultou uma obra unitária.

Todas essas opiniões nada mais indicam do que uma advertência a nos convencermos cada vez mais da solidez e da credibilidade dos fundamentos lançados pela segunda hipótese dos documentos no que respeita à divisão das fontes do Pentateuco.
 


3. Novas abordagens. - No entretanto, as pesquisas sobre o Pentateuco tiveram prosseguimentos por formas muito diversas. Sem negar a validade das bases ou dos princípios relativos à divisão das fontes, elas conduziram, por um lado, à tentativa de aperfeiçoar esse método e, por outro lado, trouxeram novos conhecimentos e nova percepção, que levaram a uma reformulação dos conceitos de "hipótese" e de "documento".

a) Na pesquisa crítico-literária observou-se o empenho por aperfeiçoar a análise. As fontes aparecem sem homogeneidade e compostas de várias camadas ou filões.

Depois que Sᴄʜʀᴀᴅᴇʀ ³⁵, Bᴜᴅᴅᴇ ³⁶ e Bʀᴜsᴛᴏɴ ³⁷ deram início ao processo de distinguir em J diversos fios de narrativas, isto aliás no sentido de um afrouxamento da hipótese dos documentos, uma vez que se abandonou a tese de um único autor a trabalhar segundo um plano premeditado, Sᴍᴇɴᴅ ³⁸ deu um passo decisivo no sentido de se admitir que a conhecida fonte J não era um documento unitário nem foram ampliado com acréscimos, mas, antes, constava de duas fontes onde aparece de ambos os lados o nome divino de Javé. A estas duas fontes ele deu, respectivamente, o nome de J¹ e J², contando a partir de então com cinco fontes do Pentateuco, ao mesmo tempo em que as apresentava seguinte ordem cronológica: J¹ - J² - E - D - P. Esta tese foi aceita, embora com ligeiras modificações, entre outros por Eichrodt ³⁹, Holzinger ⁴⁰, Meinhold ⁴¹, Eissfeldt ⁴², Simpson ⁴³ e Fᴏʜʀᴇʀ ⁴⁴. Eissfeldt, por sua vez, substitui a designação J¹ pela de L (Laienquelle, "fonte leiga"), para indicar a diferença desta fonte em confronto com o interesse sacerdotal e cultual que se observa em P, ao passo que Fᴏʜʀᴇʀ prefere designá-la com a sigla N, em vista do seu pronunciado sabor nômade. Independentemente de Sᴍᴇɴᴅ, Morgenstern ⁴⁵ admite a existência de uma fonte quenita [K, abrev. de Keniter-Quelle], surgida por volta de 900 a.C., no sul da Palestina, e Pfeiffer ⁴⁶, uma fonte mais antiga (S), surgida em Seir ou no sul da Palestina, no século X a.C. Em contraposição com estas teses, Hölscher pretendeu, mais do que ninguém, demonstrar a unidade de J, mas teve de reconhecer como pertencendo ao seu J, dado tratar-se de duplicatas, uma série de trechos que, no entanto, parecem bem antigos e quadram perfeitamente com o referido J. Por outro lado, ele atribuiu a J certas passagens que perturbam visivelmente o rito da narrativa e destoam do contexto de seu J.

Procksch ⁴⁸ propôs uma divisão para E, supondo a existência de uma fonte E¹, escrita no reino do Norte, e uma variante E², produto de ampliações e que teria surgido em Judá, depois da ruína do reino setentrional. Mas nesta tese seria preferível falar em ampliações no sentido da hipótese complementar.

O caráter compósito de P já era reconhecido de longa data, principalmente no que se refere ao surgimento paulatino dos conjuntos jurídicos (Wᴇʟʟʜᴀᴜsᴇɴ). Segundo Vᴏɴ Rᴀᴅ ⁴⁹, P é constituído de duas correntes paralelas (Pᴬ e Pᴮ), a mais nova das quais apresenta caráter predominantemente cúltico e sacerdotal e é a que mais se estende em informações sobre pessoas e datas. Esta tese vai muito além da hipótese de um conjunto básico, ampliado posteriormente por diversos acréscimos. E aqui poderíamos perguntar se, precisamente no que se refere ao material legislativo, a aplicação da hipótese complementar e da hipótese dos fragmentos não nos ofereceria uma explicação mais satisfatória.

b) A pesquisa sobre a história ds formas e dos motivos, praticada em larga escala primeiramente por Gunkel e Gressmann, modificou até certo ponto a conceituação referente aos "documentos". A atenção se voltou do aspecto qualitativo e específico das fontes para as narrações e para os materiais em particular, a fim de captar a fase pré-literária, o nascimento e o desenvolver da tradição oral, sua situação histórico-vital (Sitz im Leben) e a natureza da religião do povo. A partir daí, as fontes se revelam, não como obras literárias de grandes personalidades e compostas segundo um plano bem determinado, mas como compilações de elementos populares, transmitidos desde tempos imemoriais e recolhidas, não por indivíduos mas por escolas. Daí resulta claramente que todas as fontes, mesmo as mais recentes, contem material antigo e constituem, por isso mesmo, conjuntos de natureza muito mais complexa do que se supunha antigamente. Isso é tanto mais válido a partir do momento em que se redescobre, em proporção cada vez maior, a tradição do Antigo Oriente em seus aspectos comparativos. A pesquisa, principalmente a pesquisa condições legais e da arte de narrar, conduziu a resultados notáveis, ainda que não indiscutíveis, e haverá de trazer ainda novos conhecimentos.

A isto se acrescenta o estudo da história das tradições, que, ao contrário do conceito de história da tradição, proposto por Engnell, se atém à distinção das fontes, mas procurando recuar para além desta etapa e investigando o paulatino desenvolver-se da tradição atual, no decurso de sua longa história. Para isto, é preciso acompanhar os diversos ciclos de tradições e determinar sua idade, suas relações mútuas e sua recíproca influência. Baseado nestes dados, Noth ⁵⁰ identifica, aliás de modo muito esquemático, cinco temas básicos da tradição em estudo: o Êxodo, a conquista da terra, a promessa feita aos patriarcas, a condução do povo através do deserto e a revelação do Sinai. A moldura temática que já existia foi preenchida com materiais narrativos, como o das pragas do Egito, da celebração da Páscoa, do Baal Peor (Beelfegor) e de Balaão, e da história de Jacó a leste do Jordão. Com outros enquadramentos e com a utilização de tradições isoladas, como a novela de José e as genealogias, os temas foram pouco a pouco se desenvolvendo.

Se, depois de tudo isto, voltarmos o olhar para os primórdios das fontes e considerarmos o seu desabrochar ao longo de vários estágios, de modo cada vez mais crescente, veremos que a pesquisa do Pentateuco se torna de tal modo complexa, que as datas propostas pelas "hipóteses" podem valer apenas como seu começo. Naturalmente é um começo necessário, de onde devem partir, de novo, todos os que se dedicam ao estudo do Pentateuco, para poder então recolocar a questão da origem das fontes do Pentateuco.


Referências Bibliográficas

Introdução ao Antigo Testamento, Vol. 1, E. Sellin, G. Fohrer, Ed. Paulinas, pág. 136-148


Notas


¹ I. de La Peyrère em seu livro, publicado anonimamente: Praeadamitae (1651), opina que Moisés se utilizou de determinadas fontes e que certas partes do Pentateuco provém dele.

² B. Spinoza, em seu Tractatus Theologico-Politicus (1670), admite a existência de vários fios de uma mesma tradição e uma redação final executada por Esdras, a partir de vários fragmentos.

³ R. Simon, em sua Histoire critique du Vieux Testament (1678), só as leis considera como mosaicas e tudo o mais ele atribui a escribas analistas inspirados.

⁴ J. Clericus (J. de Clerc), em Sentiments de quelques théologiens de Hollande etc. (1685), admite que muitas partes surgiram posteriormente e que a redação final foi executada pelo sacerdote mencionado em 2Rs 17,27s, na época que se seguiu à queda do Reino do Norte de Israel.

⁵ B. Witter, Jura Israelitorum in Palaestinam terram Chananaeum commentatione etc. (1711)

⁶ J. Astruc, Conjectures sur les mémoires dont il paroit que Moyse s'est servi etc. (1753)

⁷ Eichhorn: duas fontes principais, eloísta e javista; Ilgen: dois eloístas e um javista (chamado de jeovista, durante muito tempo, por causa de leitura errada do nome de Javé).

⁸ Enquanto o sacerdote inglês A. Geddes (1792, 1800) admite a existência de numerosos fragmentos na época de Salomão e provenientes de dois círculos de autores (reconhecíveis pelo uso dos nomes de Javé e Eloim), J. S. Vater desenvolve a teoria segundo a qual o Pentateuco surgiu a partir de trinta e nove peças autônomas, tendo o Deuteronômio como núcleo.

As origens do deus Yahweh e sua adoção como deus de Israel



Introdução

Yahweh (ou Iahweh ou ainda Javé), era o deus nacional dos reinos da Idade do Ferro de Israel e Judá . O nome provavelmente originou-se como um epíteto do deus El , chefe do panteão cananeu da Idade do Bronze ("El que está presente, que se faz manifesto"), e parece ter sido único para Israel e Judá, apesar do deus Yahweh também possa ter sido adorado ao sul do Mar Morto por no mínimo três séculos antes do surgimento de Israel (de acordo com a hipótese dos Queneus).

Na mais antiga literatura bíblica (que data dos séculos 12 a 11 a.C.) Yahweh é um típico “guerreiro divino” antigo do Oriente Próximo, que lidera o exército celestial contra os inimigos de Israel , ele e Israel estão unidos por um pacto (uma característica única na antiga religião do Oriente Próximo) sob o qual Yahweh vai proteger Israel , e Israel , por sua vez não vai adorar outros deuses. Em um período posterior a adoração de Yahweh funcionava como o culto dinástico (o deus da casa real ), as cortes reais promovendo -o como o deus supremo sobre todos os outros no panteão, nomeadamente Baal , El e Asherah (o último dos quais podem ter sido sua consorte). Com o tempo o Yahwismo (ou Javismo) tornou-se cada vez mais intolerante contra os deuses rivais , e a corte real e o templo promoveram Yahweh como o Deus de todo o cosmos , possuindo todas as qualidades positivas anteriormente atribuídas aos outros deuses e deusas. Com o trabalho do Deutero Isaías (o autor teórico da segunda parte do livro de Isaías ) após o fim do exílio babilônico (século 6 a.C. ) , a própria existência de deuses estrangeiros foi negada , e o Yahweh foi proclamado como o Criador do cosmos e verdadeiro Deus de todo o mundo .

No início dos tempos pós- bíblicos o nome de Yahweh tinha deixado de ser pronunciado. No judaísmo moderno é substituído pela palavra Adonai, que significa Senhor, e é entendido como nome próprio de Deus e para indicar sua misericórdia. Muitas Bíblias cristãs seguem o costume judaico e substituí-lo por "O Senhor" .

O Nome do deus de Israel

Na Bíblia hebraica o nome é escrito como com as letras hebraicas יהוה , cuja forma latina é YHWH, em concordância com o fato de que o hebraico bíblico foi escrito apenas com consoantes. A pronúncia original de YHWH foi perdido há muitos séculos atrás, mas a evidência disponível indica que ele era pronunciado Yahweh, com todas as probabilidades, o que significa aproximadamente "Ele faz com que seja" ou "Ele cria". As origens do deus Yahweh não são claras: uma sugestão influente , embora não seja universalmente aceita , é que o nome originalmente fazia parte de um título do deus supremo cananeu El , el du yahwī ṣaba'ôt , que significa "El que cria as hostes" , significado o exército celestial acompanhava El enquanto marchava para fora ao lado dos exércitos terrestres de Israel, a proposta alternativa conecta-o com um nome de lugar ao sul de Canaã mencionado em registros egípcios da Idade do Bronze Final .

No início dos tempos pós- bíblicos o nome Yahweh tinha deixado de ser pronunciado em voz alta, a não ser uma vez por ano pelo sumo sacerdote no Santo dos Santos, e em todas as outras ocasiões, foi substituído por Adonai , que significa "meu Senhor". Alguns dos manuscritos sobreviventes da Septuaginta do primeiro século a.C. substituir o Tetragrama com a palavra grega Kyrios, que significa "Senhor". No judaísmo moderno cabalístico é um dos sete nomes de Deus que não devem ser apagados , e é o nome que denota a misericórdia de Deus . A Igreja Católica nunca usou o nome Yahweh em textos litúrgicos ou bíblias antes do Vaticano II , após o que começou a ver o uso limitado na Bíblia de Jerusalém e em alguns hinos contemporâneos. Em 2001 , a Congregation for Divine Worship and the Discipline of the Sacraments determinou que a palavra "Senhor" e suas formas equivalentes em outras línguas fossem utilizadas. Em 2007, o Papa Bento XVI ordenou a Pontifícia Comissão Bíblica para investigar se o uso do nome Yahweh era ofensivo a grupos judeus, e em 2008 o Vaticano recomendou contra o uso da palavra em novas bíblias e proibindo seu uso continuado em adoração vernacular. Na versão King James e muitas versões mais antigas da Bíblia, a transliteração JHVH é traduzido como Jeová, em alguns lugares , mas quase todas Bíblias modernas substituem "o Senhor" ou "Deus " para o tetragrama , embora o Movimento Sagrado, ativo desde o ano de 1930, promove o uso do nome de Yahweh em traduções da Bíblia e na liturgia 

O Tetragrama YHWH em Paleo-Hebraico (século 10 a.C. a 135 d.C.), antigo aramaico (século 10 a.C. ao século 4 d.C.) e hebraico quadrado (terceiro século d.C. até o presente) . Nota: o hebraico e o aramaico são escritos da direita para a esquerda.




História

Origens e adoção como "Deus de Israel"


A mais antiga referência à Yahweh no registro histórico ocorre em uma lista de tribos beduínas da Transjordânia feitas por Amenhotep III. Nela, faz-se menção dos Shasu de Yhw . Em 1979, Michael Astour sugeriu que a prestação hieroglífica de Yhw correspondeu muito bem com o que seria esperado se o termo significasse Yahweh. Donald B. Redford pensa que razoável concluir que o gentílico “Israel” gravado na Estela de Merneptah se refere a um enclave Shasu, e que, uma vez que mais tarde a tradição bíblica retrata Yahweh "vindo de Seir", os beduínos Shasu, originalmente de Moabe e do norte de Edom, passaram a formar um grande elemento na amálgama que deveria constituir o "Israel " que mais tarde estabeleceu o reino de Israel. Rainey tem uma visão semelhante em sua análise das cartas el- Amarna .

Um grande número de estudiosos, seguindo William Dever, argumentam que a evidência arqueológica sugere que os israelitas surgiram de forma pacífica e internamente nas terras altas da Canaã. Nas palavras de Dever: "A maioria dos que vieram a chamar-se ... israelitas eram ou tinham sido cananeus indígenas". Neste ponto de vista, o que distinguiu Israel de outras sociedades cananeias emergentes da Idade do Ferro foi a crença em Yahweh como o deus nacional , ao invés de , por exemplo, de Camos, deus dos moabitas, ou Milcom , o deus dos amonitas. Isso exigiria que os adoradores transjordaniano sde Yahweh não fossem identificados com Israel , mas talvez com tribos edomitas que introduziram Yahweh a Israel. Uma das outras hipóteses que é de longa data é que Yahweh surgiu como um deus guerreiro na região de Edom e Midiã, sul de Judá, e foi introduzido nas terras altas do norte e centro por tribos do sul, como os queneus. Karel van der Toornhas sugeriu que sua ascensão à proeminência e destaque em Israel deveu-se à influência de Saul, o primeiro rei de Israel , que era de fundo edomita

Diversas evidências têm levado os estudiosos à conclusão de que El era o original "Deus de Israel", por exemplo, a palavra "Israel" é baseado no nome de El em vez de na de Yahweh. El era o chefe do panteão cananeu, com Asherah como sua consorte e Baal e outras divindades que compunham o panteão. Com sua ascensão, Yahweh tornou-se identificado com El, a tal ponto que o nome de El tornou-se uma palavra genérica que significa simplesmente "deus"; Asherah tornou-se a consorte de Yahweh, e primeiramente Yahweh e Baal coexistiram, e mais tarde competiram dentro da religião popular. 


O Yahwismo e a monarquia

No período monárquico de Israel, o rei funcionava como chefe da religião nacional . Os reis usavam a religião nacional para exercer sua autoridade, mas deuses que não eram Yahweh continuaram a seren adorados . Evidências sugerem cada vez mais que muitos israelitas adoraram Asherah como consorte (esposa) de Yahweh.

Os arqueólogos e estudiosos históricos usam uma variedade de maneiras de organizar e interpretar a informação iconográfica e textual disponíveis. William G. Dever contrasta a "religião oficial/religião do estado/religião do livro" da elite com a  religião popular" das massas. Rainer Albertz contrasta "religião oficial", com a “religião da família, a "piedade pessoal" e o "pluralismo religioso interno". Jacques Berlinerblau analisa as evidências em termos de "religião oficial" e "religião popular" no antigo Israel .

Patrick D. Miller distinguiu três grandes categorias de Yahwismo: ortodoxo , heterodoxo e sincretista. O Yahwismo Ortodoxo exigia a adoração exclusiva de Yahweh (embora sem negar a existência de outros deuses). Os poderes da bênção (saúde, riqueza, a continuidade, a fertilidade) e salvação (perdão , vitória, libertação da opressão e ameaça ) residiam totalmente em Yahweh, e sua vontade era comunicada via oráculo e visão profética ou auditiva. Adivinhação e necromancia eram proibidos. O indivíduo ou a comunidade poderia clamar a Yahweh e receberia uma resposta divina, mediada por figuras sacerdotais ou proféticas.


Santuários foram erguidos em vários lugares e foram usados ​​para expressar a devoção a Yahweh por meio de sacrifício, refeições festivas e celebrações , oração e louvor. Perto do final do século VII a.C., em Judá , o culto de Yahweh estava restrito ao templo em Jerusalém, enquanto os principais santuários do reino do norte estavam em Betel (perto da fronteira sul ) e Dan (no norte). Certas datas foram definidas para a reunião do povo para celebrar os presentes dados por Yahweh e os atos da divindade de libertação e redenção.

Tudo no reino moral era entendida como uma parte da relação com o Yahweh e como uma manifestação de sua santidade. As relações familiares e o bem-estar dos membros mais fracos da sociedade eram protegidos por lei divina, e pureza de conduta, vestido , comida, etc. foram regulamentados . A liderança religiosa residia em sacerdotes que foram associados com os santuários, e também em profetas, que eram portadores de oráculos divinos. Na esfera política, o rei era entendido como o nomeado e agente de Yahweh




O Yahwismo Heterodoxo é descrito por Miller como uma mistura de elementos do Yahwismo ortodoxo com práticas particulares que conflitavam com o mesmo Yahwismo ortodoxo, ou não eram habitualmente uma parte dele. Por exemplo, o Yahwismo heterodoxo incluia a presença de objectos de culto rejeitados pelos expressões ortodoxas, como a deusa Asherah, estatuetas de vários tipos (fêmeas, cavalos e cavaleiros, animais e pássaros, e os bezerros e touros do Reino do Norte ). Os "lugares altos" como centros de culto parecem ter tido um lugar aceitável dentro do Yahwismo a um estado cada vez mais condenado nos círculos oficiais e ortodoxos. Esforços para saber o futuro ou a vontade da divindade também pode ser entendidos como heterodoxos, se eles estivessem fora dos limites ortodoxos do Yahwismo, e o mesmo mecanismo comumente aceito descrito como revelador como sonhos poderia ser condenado se a mensagem resultante foi percebida como falsa. Médiuns consultores, assistentes e adivinhos foram muitas vezes empregado por Yahwistas heterodoxos.

O Yahwismo Sincretista cobre a adoração de Baal, os corpos celestes (sol, lua e as estrelas), a "rainha do céu" e outras divindades, bem como práticas como sacrifício de crianças. Outros deuses eram invocados e servidos na hora da necessidade ou bênção e provisão para a vida quando o culto de Yahweh parecia inadequado para esses fins.  Evidências sugerem cada vez mais que muitos israelitas adoraram Asherah como consorte de Yahweh, e várias passagens bíblicas indicam que as estátuas da deusa foram mantidas em templos de Yahweh em Jerusalém, Betel e Samaria.  Outra evidência inclui muitas figuras femininas descobertas no antiga Israel, apoiando a visão de que Asherah funcionava como uma deusa e consorte de Yahweh e era adorada como a Rainha dos Céus.


 
Evidências arqueológicas sobre a adoração de Yahweh com a inscrição "Berakhti etkhem l'YHVH Shomron ul'Asherato", cuja tradução é “Eu te abençoou por Yahweh de Samaria e  sua Asherah” (século VIII a.C.):



Yahweh após a monarquia

Após a destruição da monarquia e da perda da terra no início do século 6 º (o período do exílio babilônico), uma busca por uma nova identidade levou a um re-exame das tradições de Israel. Yahweh tornou-se agora o único deus no cosmos.



Israel e Judá Antigos

Tem sido tradicionalmente creditado que o monoteísmo foi parte do pacto original de Israel com Yahweh no Monte Sinai, e a idolatria criticada pelos profetas foi devido a apostasia de Israel. Com o surgimento da arqueologia bíblica e crítica bíblica, no século 20, no entanto, um número crescente de estudiosos questionaram a visão tradicional do desenvolvimento do monoteísmo nas antigas religiões do Oriente Próximo. O surgimento da Hipótese Documentária levou os estudiosos a questionar a autoria mosaica da Torá, o que levou muitos críticos a ver os primeiros cinco livros da Bíblia como tendo vários autores e múltiplas fontes, refletindo diferentes perspectivas teológicas do seu tempo. Estudiosos formularam teorias em que os israelitas nem sempre eram monoteístas, mas estiveram num período de henoteísmo, a adoração de um deus apesar de reconhecer a existência de outros, o que se encaixa com os Dez Mandamentos ordenando os israelitas não adorar qualquer deus que não seja Yahweh. Outros indícios de uma fase henoteísta são encontradas no livro do Êxodo, onde os israelitas cantam que "não há nenhum deus como tu, ó Yahweh", no travessia do Mar Vermelho [Ex 15:11] . O Livro dos Salmos menciona Yahweh a julgar entre outros deuses (elohim) em um conselho divino. Estas observações levaram à maioria dos estudiosos bíblicos modernos a rejeitar a noção de que os israelitas eram sempre monoteístas.

Evidências de culto israelita de deuses cananeus aparecem tanto na Bíblia como nos registros arqueológicos. Referências respeitosas com a deusa Asherah ou seu símbolo, por exemplo, como parte da adoração de Yahweh, são encontrados nas inscrições do século oitavo a.C. em locais como Kuntillet Ajrud e Khirbet el- Qom, e referências aos deuses cananeus Resheph e Deber (" peste" e "praga") aparecem sem críticas em Habacuque 3:5, como parte da comitiva militar de Yahweh. O "exército do céu" também é mencionado sem críticas em 1 Reis 22:19 e Sofonias 1:5. O deus El também é identificado com Yahweh continuamente.

Israel herdou o politeísmo de Canaã do início do primeiro milênio a.C., e a religião cananeia, por sua vez, teve suas raízes desde o segundo milênio a.C. na religião de Ugarit . No segundo milênio a.C. o politeísmo foi expresso através dos conceitos do Conselho Divino e de Família Divina, uma única entidade com quatro níveis: o deus principal e sua esposa ( El e Asherah ); os setenta filhos divinos ou "estrelas de El " (incluindo Baal , Astarte, Anat , provavelmente Resheph , bem como a deusa-sol Shapshu e o deus-lua Yerak ), o ajudante chefe da família divina, Kothar wa- Hasis e os servos da casa divina , inclusive os deuses- mensageiros que mais tarde aparecem como os "anjos" da Bíblia hebraica.

No estágio inicial Yahweh era um dos setenta filhos de El , cada um dos quais era o patrono de uma das setenta nações. Isto é ilustrado pelos Manuscritos do Mar Morto e pelos textos da Septuaginta de Deuteronômio 32:8-9 , no qual El, como o chefe da assembléia divina, dá a cada membro da família divina uma nação de sua própria parte "de acordo com o número de os filhos divinos ". Israel é a parte de YHWH

Entre o Oitavo para o Sexto século a.C., El tornou identificado com Yahweh, e Yahweh-El se tornou o marido da deusa Asherah, e os outros deuses e os mensageiros divinos gradualmente tornaram-se meras expressões do poder de Yahweh. Yahweh está escalado para o papel de decisão do Rei Divino sobre todas as outras divindades, como no Salmo 29:2, onde os " filhos de Deus" são chamados a adorar Yahweh, e como Ezequiel 8-10 sugere, o próprio Templo tornou-se o palácio de Yahweh, povoado por aqueles de sua comitiva .

Muitos estudiosos que rejeitam a autoria mosaica da Torá consideram o Livro de Devarim (Deuterônimio) como tendo sido escrito por uma fonte deuteronomista no século 6 a.C., durante o exílio babilônico. É neste período que as primeiras declarações monoteístas claras aparecem na Bíblia, por exemplo, no aparentemente século VII, Deuteronômio 4:35,39, 1 Samuel 2:2, 2 Samuel 7:22, 2 Reis 19:15,19 (= Isaías 37:16 , 20), e Jeremias 16:1 ,20 e na parte do século VI de Isaías 43:10-11 , 44:6,8, 45:5-7, 14, 18, ​​21 e 46:9. Pelo fato de muitas das passagens envolvidas aparecerem em trabalhos associados com o livro de Deuteronômio e com os livros da História deuteronomista (Josué até o livro de Reis) ou em Jeremias , a maioria dos tratamentos acadêmicos recentes têm sugerido que um movimento deuteronomista deste período desenvolveu a idéia do monoteísmo como uma resposta às questões religiosas da época.

O primeiro fator por trás desse desenvolvimento envolve mudanças na estrutura social de Israel. Em Ugarit, a identidade social foi mais forte no nível da família: documentos legais, por exemplo, foram feitas muitas vezes entre os filhos de uma família e os filhos de outra. A religião de Ugarit, com a sua família divina liderada por El e Asherah, espelhavam esta realidade humana. O mesmo acontecia no antigo Israel durante a maior parte da monarquia, por exemplo, a história de Acã no Livro de Josué sugere uma família aumentada como a principal unidade social . No entanto, as linhagens familiares passaram por mudanças traumáticas que começaram no século VIII a.C., devido à grande estratificação social, seguidos de incursões assírias . Nos sétimo e sexto séculos a.C. nós começamos a ver expressões de identidade individual (Deuteronômio 26:16 , Jeremias 31:29-30 , Ezequiel 18). Uma cultura com um sistema de linhagem diminuída, se deteriorando ao longo de um período que vai do século IX ou oitavo em diante, menos embutida em patrimônios familiares tradicionais, poderão ser mais predisposta tanto para responsabilizar o indivíduo pelo seu comportamento, e ver uma divindade indivídual responsável por todo o cosmos. Em suma, a ascensão do indivíduo como a unidade social básica levou ao surgimento de um único deus na substituição de uma família divina .

O segundo fator importante foi o aumento dos impérios neo-assírio e neo-babilônico. Enquanto Israel foi, desde o seu próprio ponto de vista, parte de uma comunidade de nações pequenas semelhantes , fazia sentido para ver o panteão israelita a par com as outras nações, cada uma com o seu próprio deus partrono como no quadro descrito em Deuteronômio 32: 8-9. O pressuposto deste visão de mundo era que cada nação era tão poderosa quanto seu deus patrono. No entanto, a conquista neo-assíria do reino do Norte em cerca de 722 a.C. desafiou esta tese, pois se o império neo-assírio eram tão poderoso, assim deve ser o seu deus, e , inversamente, se Israel poderia ser conquistado (e mais tarde Judá , cerca de 586 a.C.), deu a entender que Yahweh, por sua vez, era uma divindade menor. A crise foi recebida como a separação do poder celestial e reinos terrenos. Apesar de Assíria e Babilônia serem tão poderosas, o novo pensamento monoteísta em Israel fundamentou, isso não quer dizer que o Deus de Israel e Judá era fraco. Assíria não conseguira sucesso por causa do poder de seu deus Marduk , era Yahweh que estava usando a Assíria para punir e purificar a uma nação que Yahweh havia escolhido.

No período pós- exílico , o monoteísmo completo tinha surgido: Yahweh era o único Deus, e não apenas de Israel, mas do mundo inteiro . Se as nações eram instrumentos de Yahweh, então o novo rei que viria redimir Israel poderia não ser um judeu como ensinado na literatura mais antiga (por exemplo, o Salmo 2). Agora, mesmo um estrangeiro, como Ciro, o persa, poderia servir como o ungido do Senhor (Isaías 44:28, 45:1). Um deus estava atrás de toda a história do mundo.

Os papiros de Elefantina e Anat-Yahu

Os papiros Elefantina do quinto século a.C. sugerem que "Mesmo no exílio e mais além, a veneração de uma divindade feminina continuou.” Os textos foram escritos por um grupo de judeus que viviam em Elefantina, perto da fronteira Nubiana, cuja religião foi descrita como "quase idêntica à daReligião Judaica da Idade do Ferro II". Os papiros descrevem os judeus como adorando Anat-Yahu (ou AnatYahu). Anat-Yahu é descrito como a esposa de Yahweh, ou como um aspecto hipostasiada de Yahweh.

Referências Bibliográficas

Miller, Patrick D (2000). The Religion of Ancient Israel. Westminster John Knox Press.
Smith, Mark S (2001). Untold Stories: The Bible and Ugaritic Studies in the Twentieth Century. Hendrickson Publishers.
Smith, Mark S (2001). The Origins of Biblical Monotheism : Israel's Polytheistic Background and the Ugaritic Texts. Oxford University Press.
Smith, Mark S (2002). The early history of God. Eerdmans. I 
Gnuse, Robert Karl (1997). No Other Gods: Emergent Monotheism is Israel