sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Apresentação ‒ Cristianismos Perdidos: As Escrituras cristãs e as Batalhas sobre autenticação

Escopo

Os cristãos do segundo e terceiro séculos mantiveram uma considerável extensão ampla de crenças.  Embora algumas destas crenças possam soar ridículas hoje, naquele tempo elas pareciam não apenas sensíveis mas corretas.  Alguns cristãos sustentavam que haviam dois deuses, ou doze, ou trinta ou mais. Alguns cristãos alegavam que Jesus não era realmente um ser humano, ou que ele não era realmente divino, ou que ele era dois diferentes seres: um humano e um divino. Alguns cristãos acreditavam que este mundo não era criado por um Deus Verdadeiro, mas por uma deidade maligna para punição para as almas humanas, que tinham se tornado aprisionadas aqui em corpos humanos. Alguns cristãos acreditavam que a morte de Jesus e sua ressurreição não tinham nenhuma relação com a salvação, e alguns cristãos acreditam que Jesus não tinha de fato morrido.
Cristianismos Perdidos é um curso que considera as variedades de crenças e práticas nos primitivos dias do Cristianismo, antes que a igreja decidisse o que era teologicamente aceitável e determinasse quais livros seriam incluídos em seu canon da Escritura. Parte da disputa sobre crença e prática na igreja primitiva era sobre o que deveria ser aceito legitimamente como “cristão” e o que deveria ser condenado como “heresia”. Este curso considera o debate para ortodoxia (i.e., crença correta) e a tentativa de classificar, repelir e derrotar a heresia (i.e., falsa crença). Em particular, o curso tenta compreender os cristãos que foram mais tarde considerados heréticos em seus próprios termos e explorar os escritos que estavam disponíveis e poderiam ser apelados para apoio de seus pontos de vista.
Os cristãos hoje, naturalmente, pensam tipicamente sobre o Novo Testamento como a base para uma correta compreensão da fé. Mas o que era o Cristianismo antes que existisse o Novo Testamento? É impressionante como todos os grupos cristãos antigos, com suas diferentes visões sobre Deus, Cristo, salvação e o mundo, tivessem livros que – como aqueles que eventualmente entraram no Novo Testamento – alegavam serem escritos pelos próprios apóstolos de Jesus. Alguns destes pseudopigráficos (i.e., falsamente atribuídos) livros foram descobertos por arqueologistas e beduínos no Egito e no Oriente Médio em tempos modernos, evangelhos, por exemplo, que alegam a serem escritos pelos discípulos de Jesus Pedro, Tomé e Filipe. Estes pseudepigráficos retratam uma diferente compreensão do cristianismo de um que se tornou dominante na história da religião e é familiar a maioria das pessoas hoje. Neste curso, nós estudaremos estes livros não-canônicos e as formas de crença cristã que eles representavam, do segundo e terceiro séculos, i.e., do tempo imediatamente posterior à morte dos apóstolos de Jesus até o tempo quando muitos destas primitivas compreensões do Cristianismo tinham sido eliminadas da igreja, deixando a única forma de “ortodoxia” que se tornou triunfante no início do século quarto com a conversão do Imperador romano Constantino.
O curso é dividido em muitos componentes. Depois de uma lição introdutória que lida com a diversidade ampla do Cristianismo nos mundos moderno e antigo, nós iniciaremos uma discussão de três formas de Cristianismo que foram altamente influentes durante o secundo e o terceiro séculos cristãos: os Ebionitas, um grupo de cristãos que insistia em manter sua identidade judaica enquanto acreditando em Jesus; os Marcionitas, um grupo que rejeitou tudo o que era judaico de suas compreensões de Jesus; e os Gnósticos, um grupo de vasto alcance e que compreendia que este mundo era um local maligno de prisão do qual alguém poderia escapar por aprender a verdade sobre sua identidade através dos ensinamentos secretos de Jesus.
Nós então começaremos por considerar, em lições separadas, importantes livros lidos e reverenciados por cada um destes grupos e pelo grupo que representava os antepassados do tipo de Cristianismo que eventualmente se tornaria dominante no Império, um grupo que classificaremos como “proto-ortodoxo” (porque eles mantiveram os pontos de vista que eventualmente vieram a serem declarados ortodoxos). Muitos destes livros são pseudônimos, forjados em nome de um ou outro dos apóstolos. Incluídos em nossa consideração estarão os “Evangelhos Gnósticos”, tais como o Evangelho de Tomé; os “Evangelhos da Infância”, que narram eventos fictícios da vida de Jesus como uma criança e adolescente; “Atos Apócrifos”, que narra descrevem as divertidas fugas dos muitos apóstolos de Jesus (incluindo a mulher Tecla) após sua morte; as “Epístolas Apócrifas” alegadamente escritas pelo apóstolo Paulo ou outros; e um apocalipse apócrifo, uma descrição de uma viagem guiada pelo céu e inferno dado ao apostolo Pedro pelo próprio Jesus.
Após considerar estes fascinantes documentos, muitos dos quais vieram ao nosso conhecimento apenas durante o século vinte, nós voltaremos a considerar os conflitos entre as várias formas de cristianismo nos primeiros séculos, para ver como ver como é que se compreender a fé que veio a ser dominante e esmagar toda sua oposição. Na seção final do curso, nós consideraremos como o partido proto-ortodoxo se revestiu de poder eclesiástico em seu clero (formando a estrutura e hierarquia que se tornaria o suporte da igreja durante a Idade Média); desenvolveu o seu canon da Escritura (o Novo Testamento, que não foi finalizado como canon até o fim do século quatro); e formulou credos padrões(como, por exemplo, o Credo dos Apóstolos e o Credo Niceno) como declarações de fé a serem adereçadas a todos os crentes, eliminando assim a possibilidade de compreensões alternativas do que poderia significar ser um seguidor de Jesus.

domingo, 17 de agosto de 2014

Sacricios Humanos à Iahweh, o Deus do Antigo Testamento

O sacrifício humano é o ato de se matar um ou mais seres humanos, geralmente como oferecimento à uma divindade, como parte de um ritual religioso. Sua tipologia é próxima às várias práticas de sacrifícios animais em geral. O sacrifício humano tem sido pratico em várias culturas ao longo da história. As vítimas era tipicamente mortas de uma maneira que era entendida agradar ou aplacar deuses, espíritos ou mortos, como exemplo de uma oferta propiciatória, ou ou como um sacrifício de retenção quando os servos do rei são mortos para que eles continuem a servir o seu mestre na próxima vida. Relatos de prática parecidos são encontrados em algumas sociedades tribais que eram canibais e caçadores de cabeça. Na Idade do Ferro, com os desenvolvimentos associados nas religiões (A chamada Era Axial), o sacrifício humano se tornou casa vez menos comum no mundo antigo, e se tornou menosprezado e visto como bárbaro nas eras pré-modernas (Antiguidade Clássica).

Nos tempos modernos, até mesmo a prática de sacrifício animal tem virtualmente desaparecido da maior parte das religiões, e o sacrifício humano se tornou extremamente raro. A maioria das religiões condena a prática, e no presente tempo e com as leis seculares isso é tratado como assassinato.

Sacrifícios Humanos atestados no Antigo Testamento

É interessante notar o que Voltaire diz em seu Traité sur la Tolérance:

Moisés ordenou matar todas as crianças do sexo masculino e todas as mães e dividir o espólio (Números 31). Os vitoriosos encontraram nos campos 675.000 ovelhas, 72.000 biusm 61.000 asnos e 32.000 mulheres jovens; fizeram a partilha e mataram o resto (Números, Cap. 31, vers. 32 e seguintes). Vários comentadores acreditam mesmo que trinta e duas jovens muleres foram imoladas ao Senhor: “Cesserunt in partem Domini triginta duae animae” (Números Cap. 31, vers. 40)

Com efeito, os judeus imolavam homens à divindade Iahweh, como o testemunha o sacrificio de Jefté ¹, como o testemunha o rei Agague, cortado em pedaços pelo sacerdote Samuel ². O próprio Ezequiel (Cap. 39, Vers. 20) lhes promete, para encorajá-los, que vão comer carne humana: “Irão comer o cavalo e o cavaleiro; beberão o sangue dos príncipes”. Vários comentadores aplicam dois versículos dessa profecia aos próprios judeus e os outros aos animais carniceiros.

Notas

¹ Pelo texto (Juízes, 11, 39), é certo que Jefté imolou sua filha. Dom Calmet, em sua Dissertation sur le voeu de Jephté, escreve : “Deus não aprova esses votos, mas quando foram feitos, quer que sejam cumpridos, mesmo que fosse para punir aqueles que os faziam ou para reprimir a leviandade demonstrada ao fazê-los, se não tivessem receado o cumprimento”. Santo Agostinho e quase todos os Padres da Igreja condenam a ação de Jefté. É verdade que a Escritura (Juízes, 11, 29) diz que ele foi possuído pelo espírito de Deus, e São Paulo, em sua Epístola aos Hebreus (11, 32), elogia Jefté; ele o coloca ao lado de Samuel e Davi. São Jerônimo, em sua Epístola a Juliano, escreve: “Jefté imolou sua filha ao Senhor e é por isso que o apóstolo o enumera entre os santos.” Aí estão, de parte e de outra, julgamentos sobre os quais não é permitido emitir o nosso; devemos até mesmo ter medo de arriscar um.

² Podemos considerar a morte do rei Agague como um verdadeiro sacrifício. Saul tinha feito esse rei dos amalequitas prisioneiro de guerra e o havia levado por acordo feito, mas o sacerdote Samuel lhe havia ordenado de não poupar nada. Tinha prometido a ele pessoalmente: “Mata tudo, desde o homem até a mulher, até as crianças e e até aqueles que ainda estão mamando” . Dom Calmet diz: “Samuel cortou o rei Agague em pedaços, diante do Senhor, em Gilgal. O zelo de que estava animado esse profeta lhe pôs a espada nas mãos nessa ocasião para vingar a glória do Senhor e para confundir Saul.” Vemos, nesse caso fatal, um voto, um sacerdote, uma vítima: era portanto um sacríficio.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Imago Mundi, a «Imagem do Mundo»

Imago Mundi ou “Imagem do mundo”, o cosmos a partir do habitat do homem religioso (homo religious). Além disso, para o homem religioso, o cosmos em seu nascimento se espalhou para fora do centro. Consequentemente, quando emprendia novas obras, homem religioso, por analogia, organizava o exterior a partir de um ponto central.

Assim, uma nova aldeia podia ser desenvolvida a partir de um cruzamento para fora, dando-lhe quatro zonas. Tal plano fazia uma nova construção de um imago mundi, uma representação do cosmos nos fundamentos.Compreendendo o seu mundo desta forma, homem religioso compreendia  os ataques de inimigos como a obra de demônios, os inimigos da criação divina que ameaçavam retornar a criação ao estado de caos. Normalmente, esses demônios foram representados como os dragões, serpentes, monstros marinhos, etc; e na verdade o próprio caos pode ser representado como um dragão.Mircea Eliade observa que algo desta forma de pensamento persiste em seu mundo contemporâneo, em idéia de forças das trevas que ameaçam mergulhar a civilização no caos. Voltando ao imago mundi, , Eliade assinala que homem religioso via em sua morada a mesma ordem cósmica representada na construção. Assim, os povos cujas tendas ou cabanas tinha um posto central ou pilar poderiam entendê-la como um axis mundi, apoiando 'nosso mundo' e lingado-o ao céu.

Axis Mundi? Bem, isso é assunto para outro tópico...

terça-feira, 8 de julho de 2014

Bíblia abriga duas versões do Dilúvio

A narrativa do Dilúvio do Gênesis compõe os capítulos 6-9 do livro de Gênesis, na Bíblia. A narrativa, uma dos muitos mitos sobre inundações encontradas em várias culturas humanas, indica que Deus quis retornar a Terra ao estado de pré-criação do caos aquático inundando a Terra por 370 dias (150 dias de inundação + 220 dias para secar as terras inundadas) por causa dos delitos da humanidade, e então refazê-la usando o microcosmo da Arca de Noé. Assim, o dilúvio não foi uma inundação ordinária, mas uma reversão da criação. A narrativa discute a maldade da humanidade que levou Deus a destruir o mundo por meio do Dilúvio, a preparação da arca para certos animais, Noé e sua família e a garantia de Deus para a existência da vida sob a promessa de ele nunca mais enviaria outro dilúvio.

Embora o consenso dos estudiosos desde o século 19 tem sido o de que esta história não pode ser literalmente verdadeira, alguns grupos religiosos ainda abraçam amplamente a história da Arca. Entre outras questões e problemas estão as imensas dificuldades de explicar como coletar, abrigar, dar de beber, alimentar e cuidar de um grande número de animais em um navio de madeira menor do que muitos navios modernos poderia ser geograficamente encontrada. Por esta e outras razões a história da arca de Noé é geralmente considerada como uma lenda.

Origens e composição

Estudiosos afirmam que a narrativa do Genesis é composta de duas histórias diferentes que foram combinadas na forma final canônica de Genesis 6-9. Alguns acadêmicos chamam estas de Fonte Javista (YHWH) e Fonte Sacedotal (Elohim). Cotter lista algumas das notáveis dificuldades entre as duas fontes: duas razões diferentes são dadas para o porquê do dilúvio acontecer, à Noé são das duas diferentes instruções sobre os animais e aves serem aceitos a bordo na arca, existem dois prazos diferentes dados para quanto tempo durou o dilúvio, existem diferentes explicações explicações para a "natureza das águas do Dilúvio", diferentes circunstâncias pelas quais Noé e os animais deixaram a Arca e dois "nomes divinos" Elohim e Yahweh são usados.

Barry L. Bandstra afirma que existem diferenças no estilo característico e vocabulário, e que eles não são totalmente contraditórios. John Byron diz que, quando existem aparentes contradições, eles não são normalmente vistos como erros por estudiosos judeus, mas como alusões a significados mais profundos. Mesmo interpretes posteriores tem procurado descobrir a harmonia básica que subjaz à narrativa, seja escrita por diferentes autores, em tempos diferentes, ou em diferentes culturas.

O Dilúvio Bíblico na Mitologia Comparada

A narrativa do dilúvio do Gênesis é mais uma de numerosos mitos de inundação. Muitos estudiosos acreditam que a história de Noé e do Dilúvio Bíblico são derivadas das versões mesopotâmicas predominantemente porque a mitologia bíblica que hoje é encontrada no Judaismo, Cristianismo, Islamismo e Mandeísmo é consistente com as antigas histórias da Mesopotâmia escritas sobre o Grande Dilúvio, e que alguns dos primitivos hebreus viveram na Mesopotâmia, durante, por exemplo, o cativeiro babilônico. O mais antigo mito escrito sobre o dilúvio é o mito do dilúvio sumeriano, encontrado no Épico de Ziusudra. Histórias similares e mais recentes são encontradas nos textos do Épico de Gilgamesh e do Épico de Atrahasis.

A Narrativa do Dilúvio: Os Nefilins (נְפִלנ ְפִיל)

Gênesis 6:1–4 apresenta os Filhos de Deus se unindo às filhas dos homens e gerando uma raça de gigantes, "os homens valentes da antiguidade, homens de renome". O Gênesis continua: "E o Senhor viu que a maldade do homem era grande na terra. e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração era má continuamente". Deus decidiu destruir o que ele tinha feito e começar de novo com o justo Noé. Deus escolheu o dilúvio como instrumento da destruição que é retratada como uma verdadeira inversão da criação.

O Julgamento de Deus

Na narrativa do Gênesis, o dilúvio ocorre porque Deus julga a humanidade. Nos versos 6:5-8, Yahweh (ou "O Senhor") julga a humanidade por ser perversa e má. Nos versos 6:11-22, Deus julga a humanidade por ser corrupta e violenta.  O julgamento nos versos 6:5-8 é pensado a ter sido escrito antes e combinado posteriormente com a segundo. Este elemento do julgamento faz com que a história do dilúvio bíblica se diferencie do dilúvio do babilônico Épico de Gilgamesh. Na história de Gilgamesh o dilúvio é mencionado apenas em passagem da própria narrativa do Épico, e aparece como tendo sido resultado de um capricho politeístico, e não o supremo julgamento de um Deus moral. Contudo na versão do Atrahasis da história babilônica do dilúvio (que lida diretamente com a inundação), fica claro que o dilúvio foi enviado pelos deuses para reduzir a superpopulação humana, e depois do dilúvio outras medidas foram introduzidas para prevenir que o problema acontecesse novamente.

Preparando a Arca

Começando com Genesis 6:14, Deus dá instruções à Noé para construir um navio à prova d'água que iria abrigar sua família, juntamente com uma amostra de cada vida animal. O navio é uma arca feita de madeira gôfer coberta por piche por dentro e por fora. A Arca era para ter 300 côvados de comprimento, 50 metros de largura e 30 côvados de altura e com uma abertura para a entrada da luz do sol no alto, uma entrada em um lado e três plataformas. Deus disse à Noé que ele, seus filhos, sua esposa e as esposas de seus filhos, e dois exemplares de cada espécie - macho e fêmea - sobreviveriam na Arca (Genesis 6:1–22). Sete dias antes do Dilúvio, Deus disse à Noé para entrar na Arca com sua família, e para levar sete pares de cada animal limpo e cada pássaro, e um par de cada um dos outros animais, para manter sua espécie viva (Genesis 7:1–5)

O Grande Dilúvio

A fonte Sacerdotal (Elohim) descreve a natureza das águas do dilúvio como um cataclisma cósmico, pela abertura das nascentes das profundezas e das comportas ou janelas do céu. Isto é o reverso da separação das águas mencionados na narrativa da criação de Gênesis 1. Depois que Noé e o restante dos animais estavam seguros, as fontes do grande abismo e as comportas ou janelas do céus foram abertas, causando uma chuva sobre a Terra por 40 dias. As águas se elevaram, com os picos das montanhas mais altas sob 15 côvados de água, inundando o mundo por 150 dias, e retrocedendo em 220 dias.

A versão javista (YHWH) de como as águas do dilúvio vieram a surgir é indicada em  Gênesis 7:12, onde elas se desenvolvem por meio de uma chuva torrencial que dura ao menos 40 dias, e então recua em períodos de sete dias. Durante este tempo, a Arca repousou sobre as montanhas de Ararate, onde Noé abre a janela e enviou um corvo para fora, que foi de lá para cá. Então ele soltou uma pomba para ver se as águas haviam diminuído, mas a pomba não pode encontrar um lugar para descansar, e retornou à Arca. Ele esperou outros setes dias, e novamente soltou a pomba, e a pomba voltou à noite trazendo um ramo de oliveira. Ele esperou outros sete dias e soltou a pomba, e ela não retornou. Quando Noé removeu a cobertura da Arca, ele viu que a terra estava seca (Genesis 8:1–13).

O Pacto do Arco Iris

Deus faz um pacto de garantia com Moisés em  Genesis 9:1–17. A Versão Sacerdotal (Elohim) assume a forma de uma forma de Aliança. Este é o primeiro ato explicito de uma aliança ou pacto na Bíblia Hebraica e é usada sete vezes neste episódio. Deus se empenha em continuar tanto a vida humana como animal e promete nunca mais usar um segundo dilúvio contra a humanidade. O pacto é selado com um sinal de um arco íris, após a tempestade, como um lembrete.

Deus abençoa Noé e seus filhos usando a mesma linguagem da Fonte Sacerdotal sobre a narrativa da criação do Gênesis. "Sejam frutíferos e aumentem e encham a Terra". Antes do Dilúvio animais e homens coexistiam em um domínio de paz e apenas conhecendo uma dieta vegetariana. Depois do Dilúvio, Deus sustentou que a humanidade seria responsável sobre os animais, garantindo que eles poderiam servir como alimento sob a condição que o seu sangue fosse retirado. Deus estabeleceu estas regras de pureza bem antes de qualquer transação com o Antigo Israel, e efetivamente não se limitaria tal procedência exclusivamente à fé judaica. A vida humana recebe sanção divina especial porque a humanidade é uma imagem de Elohim (Deus)

Tabela: Os elementos das fontes Sacerdotal (P) e Javista (J) da narrativa do dilúvio (Gênesis 6-9)



Fonte Sacerdotal
Fonte Javista
Título e Introdução
Punição divina por causa                 6:11:13
da maldade humana
Punição divina por causa                   6:5-8
da maldade humana
Noé é ordenado a construir             6:14-18a
uma Arca
Noé é ordenado a levar sua            6:18b-22
família e dois exemplares de
cada espécie animal dentro
da Arca.
Noé é ordenado a levar                     7:1-5
sua família, sete pares
de cada animal limpo e
um par de cada animal impuro
dentro da Arca.
Idade de Noé                                          7:6
Data do Dilúvio                                     7:11
A chuva cai por mais de 40 dias          7:12
Noé, sua família e os                     7:13-16a
animais entram na Arca
Noé, sua família e os                       7:7-10
animais entram na Arca
O dilúvio vem sobre a Terra                 7:17a
O dilúvio vem sobre a Terra     7:16b e 17b
Descrição do Dilúvio                         7:18-21
Descrição do Dilúvio                      7:22-23
A inundação dura 150 dias                     7:24
Deus termina o dilúvio                      8:1-2a
O Dilúvio termina                         8:2b-3a
As águas recuam e a                        8:3b-5
Arca para sobre Ararat
Noé envia pássaros                         8:6-12
para testar o nível das águas
Data da secagem do                 8:13a e 14a
Dilúvio
Noé vê que a Terra está seca            8:13b
Noé é ordenado a deixar a                8:15-19
Arca
Noé sacrifica a Deus                      8:20-22
Deus faz um pacto com Noé               9:1-17
Duração da vida de Noé                   9:28-29

Referencias Bibliográficas

The Pentateuch A Story of Beginnings, Paula Gooder, T&T Clarck Approaches to Biblical Studies, páginas 38 e 39

segunda-feira, 7 de julho de 2014

As Duas Narrativas Contraditórias da Criação do Genesis

Fontes e Origens do Pentateuco

Embora a tradição atribua a composição do livro de Gênesis à Moisés, os estudiosos bíblicos asseguram que, junto com os outros quatro livros restantes (perfazendo o que os judeus chamam de Torá e os estudiosos bíblicos chamam de Pentateuco) é "um trabalho composto, o produto de muitas mãos e períodos". Uma hipótese comum entre os estudiosos bíblicos hoje é de que a maior parte abrangente do Pentateuco foi composta amplamente nos séculos 7 ou 6 a.C. ( a fonte Javista), e que esta foi mais tarde expandida pela adição de várias narrativas e leis (a fonte Sacerdotal) em um trabalho que é muito similar ao existente hoje. As duas fontes aparecem em ordem reversa:   Genesis 1:1–2:3 é Sacerdotal e Genesis 2:4–24 é Javista.

Quanto ao contexto histórico que conduziu a criação da narrativa em si, a teoria que tem ganhado interesse notável, embora ainda controversa, é a "Autorização Imperial Persa". Ela propõe que os persas, após sua conquista da Babilônia em 538 a.C., concordaram em garantir à Jerusalém uma ampla medida de autonomia local dentro do Império, mas exigiram das autoridades locais que produzissem um único código de leis aceito por toda a comunidade. Isso implica que existiam dois grupos poderosos na comunidade: as famílias sacerdotais que controlavam o Templo, e as famílias proprietárias de terras que se compunham pelos "anciãos", e estes dois grupos estavam em conflito por muitos motivos, e cada um tinha sua própria "história das origens", mas a promessa persa de uma maior autonomia local para todos deu um poderoso incentivo na cooperação na produção de um único texto.

Estrutura das Duas Narrativas

A narrativa da criação é feita de duas histórias, grosseiramente equivalente aos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis (Lembrando que não existem divisões de capítulos no texto hebraico original). A primeira narrativa (1:1 à 2:3) emprega uma estrutura repetitiva de fiat divino e realização, então a sentença: "E houve tarde e manhã, o ...ésimo dia" para cada um dos seis dias de criação. Em cada um dos três primeiros dias há um ato de separação: o primeiro dia a luz se separa da escuridão, o segundo dia as "águas superiores" das "águas inferiores" e no terceiro dia a terra do mar. Em cada um dos três dias seguintes estas separações ou divisões são povoadas: no quarto dia  a escuridão e a luz são povoadas com o sol, a lua e as estrelas, no quinto dia os mares e céus são povoados com peixes e aves, e finalmente as criaturas terrestres e a humanidade povoam a terra..

As duas histórias são mais complementares do que  sobrepostas, com a primeira (a história Sacerdotal) preocupada com o plano cósmico da criação, enquanto que a segunda (a história Javista) se focando no homem como cultivador do seu ambiente e como um agente moral. Existem paralelos significantes entre as duas histórias, mas também diferenças notáveis: a segunda narrativa, em contraste com o esquema organizado dos sete dias de Genesis 1, usa uma narrativa simples em estilo fluente que procede da formação de Deus do primeiro homem através do Jardim do Éden até a criação da primeira mulher e a instituição do casamento; em contraste com o Deus onipotente de Genesis 1,criando uma humanidade como deus, o Deus de Genesis 2 pode tanto falhar como ter sucesso; a humanidade  que ele cria não é como deus, mas é punida por atos que a levariam a se tornar como deus (Genesis 3:1-24); e a ordem e o método de criação diferem entre si. Juntas, esta cominação de caracteres paralelos e perfis contrastantes apontam para diferentes origens dos materiais em   Genesis 1:1–2:3 e 2:4b–3:23, muito embora eles tenham sido elegantemente combinados.

As narrativas primárias em cada capítulo são unidas por uma "ponte literária" em  Genesis 2:4a: "Estas são as gerações dos céus e da terra quando eles foram criados". Isto ecoa a primeira linha de Genesis 1: "No Princípio Deus criou os céus e a terra", e é revertido na frase seguinte Genesis 2:4b: "... no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus". Este verso é uma das dez frases de gerações(do hebraico תולדות‎ tôledôt) usadas através do Genesis, que providenciam uma estrutura literária ao livro. Elas normalmente funcionam como cabeçalho ao texto que vem depois, mas a posição desta, a primeira das séries, tem sido assunto de muito debate.

As duas tabelas abaixo mostram as duas narrativas bíblicas da criação comparadas. Para tanto utilizei, como referência, a Bíblia de Jerusalém:


Primeira Narrativa (Gênesis 1:1-2:3)

Segunda Narrativa (Gênesis 2:4-25)
Gênesis 1:25-27 (Humanos foram criados  depois dos outros animais)

Deus (Elohim) fez as feras segundo sua espécie, os animais domésticos segundo sua espécie e todos os répteis do solo segundo sua espécie, e Deus (Elohim) viu que isso era bom. E Deus (Elohim) disse: Façamos o homem à nossa imagem... Deus (Elohim) criou o homem à sua imagem.




Gênesis 1:27 (O primeiro homem e a primeira mulher foram criados simultaneamente)


E Deus (Elohim) criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus (Elohim) ele o criou, homem e mulher ele os criou.
Gênesis 2: 18-19 (Humanos foram criados  antes dos outros animais)

Iahweh Deus disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda. Iahweh Deus modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse.



Gênesis 2: 18-22 (O homem foi criado primeiro, então os animais, e então a mulher foi criada da costela do homem)


Então Iahweh Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem. Iahweh Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem.



Referência Bibliográfica:
 

The Pentateuch A Story of Beginnings, Paula Gooder, T&T Clark Approaches To Biblical Studies, 2005

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Vulgata, a Bíblia Latina

A Vulgata é a translação latina da bíblia do fim do quarto século que se tornou, durante o décimo sexto século, a versão latina oficialmente promulgada da Igreja Católica da Bíblia.

A Vulgata foi oficializada como Bíblia Latina da Igreja Católica como uma consequência do Concílio de Trento (1545-1563), quando, em face da Reforma Protestante, se tornou evidente que era necessária uma referência de autoridade para a escritura.

A tradução é um trabalho majoritário de São Jerônimo, que, em 382, foi comissionado pelo papa Dâmaso I para revisar a Vetus Latina ("Latim Antigo"), que era uma coleção de textos bíblicos em latim então em uso pela Igreja. Uma vez publicada, a Vulgata foi amplamente adotada, acabou eclipsando a  Vetus Latina e, por volta do século 13, se tornou conhecida como a  "versio vulgata(a versão comumente usada) ou, mais simplesmente, como a "vulgata".

Autoria da Vulgata

A Vulgata tem um texto composto que não é um trabalho inteiramente de Jerônimo. Seus componentes incluem:

● A tradução independente de Jerônimo do hebraico: os livros da Bíblia Hebraica, usualmente não incluindo sua tradução dos Salmos. Isto foi completado em 405.
● Tradução do grego de Teodócio por Jerônimo: As três adições ao livros de Daniel; Canção das Três Crianças, História de Susana e Bel e o Dragão. A Canção das Três Crianças foi retida dentro da narrativa de Daniel, enquanto que as outras duas adições Jerônimo colocou no fim do livro.
● Translação da Septuaginta por Jerônimo: Adições à Ester. Jerônimo reuniu todas estas adições juntas no final do livro de Ester.
● Tradução da Septuaginta Hexaplar por Jerônimo: sua versão galicana (Versio Gallicana ou Psalterium Gallicanum) do livro de Salmos. As revisões hexapláricas de Jerônimo de outros livros do Antigo Testamento continuaram a circular na Itália por muitos sécuos, mas apenas Jó e fragmentos de outros livros sobreviveram.
● Tradução livre de Jerônimo de uma versão aramaica secundária: Tobias e Judite
● Revisão de Jerônimo da Vetus Latina, corrigida com referência aos mais antigos manuscritos gregos disponíveis: os Evangelhos.
Vetus Latina, mais ou menos revisadas por uma pessoa ou pessoas desconhecidas: Baruque, Carta de Jermias, 3 Esdras, Atos, Epístolas e o Apocalipse.
● Vetus Latina, amplamente não revistos: Epístola aos Laodicenses, Oração de Manassés, 4 Esdras, Sabedoria ou Sirácida, Eclesiástico e 1 e 2 Macabeus.





Septuaginta, a primeira bíblia Cristã

A Septuaginta, da palavra latina septuaginta (que significa setenta), é a translação da Bíblia Hebraica e textos relacionados para o Grego Koiné. O título e seu numeral acrônimo romano LXX se referem aos legendários setenta sábios judeus que completaram a tradução no inicio ou fim do segundo século a.C. Como a primeira translação grega do Antigo Testamento, ela também é chamada de Antigo Testamento Grego (Ἡ μετάφρασις τῶν Ἑβδομήκοντα).  Esta tradução é citada no Novo Testamento, particularmente nas epístolas Paulinas, e também pelos Padres Apostólicos e últimos Padres Gregos.

A Septuaginta não deve ser confundida com sete ou outras mais versões em grego do Antigo Testamento, muitas das quais apenas existem na forma de fragmentos (algumas partes daquilo que é conhecido da Hexapla de Orígenes, uma comparação de seis traduções em colunas adjacentes, agora quase totalmente perdida). Uma destas, a mais importante, foram feitas por Aquila, Símaco e Teodócio.

A Origem do Nome

A palavra Septuaginta, como dito acima, deriva seu nome da expressão latina versio septuaginta interpretum, "tradução dos setenta interpretes", do grego  ἡ μετάφρασις τῶν ἑβδομήκοντα,hē metáphrasis tōn hebdomḗkonta, "tradução dos setenta". Contudo, não foi até o tempo de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) que a translação grega das escrituras judaicas se tornou conhecida pelo termo latino Septuaginta. O numeral romano LXX (Setenta) é comumente usado como abreviação em vários textos para a Septuaginta.

A lenda sobre a composição

Estes títulos se referem a história legendária, de acordo com a qual setenta ou setenta e dois sábios judeus foram solicitados (O texto do Talmude implica que os sábios foram forçados) pelo rei grego do Egito Ptolomeu II Filadelfo que traduzisse a Torá da Bíblia Hebraica para o Grego, para sua inclusão na Biblioteca de Alexandria.

Esta lenda é primeiramente encontrada na pseudepigráfica Carta de Aristeas ao seu irmão Filócrates, e foi repetida, com adornos, por Fílon de Alexandria, Josefo e por outras fontes tardias, incluindo Santo Agostinho. Uma versão da lenda é encontrada no Tratado Megillah do Talmude Babilônico:

O rei Ptolomeu uma vez juntou 72 sábios. Ele os colocou em 72 salas, cada uma delas separada das outras, sem revelar a eles o porquê de haverem sido convocados. Ele entrou em cada sala e disse à cada um: "Escreva para mim a Torá de Moisés, seu mestre". Deus colocou no coração de cada um para traduzir identicamente como os outros traduziram.

Fílon de Alexandria, que dependia extensivamente da Septuaginta, diz que o número de sábios foi escolhido por se selecionar 6 sábios de cada uma das 12 tribos de Israel.

A História por trás da lenda

A data do terceiro século a.C., dada pela lenda, é confirmada (para a translação da Torá) é confirmada por numerosos fatores, incluindo o grego do texto sendo um representante do primitivo grego koiné, citações cujo inicio se situam no segundo século a.C., e manuscritos antigos datados do segundo século.

Depois da Torá, outros livros foram traduzidos ao longo dos dois e três séculos posteriores. Não está totalmente claro quando eles foram traduzidos, nem onde; e alguns podem até mesmo ter sido traduzidos duas vezes, em diferentes versões e posteriormente revisados. A qualidade e o estilo das diferentes traduções também varia consideravelmente de livro a livro, do literal ao parafraseativo.

O processo de tradução da Septuaginta pode ser partido em muitos e diferentes estágios, durante o meio social do qual os tradutores mudaram do Judaismo Helenístico para o Cristianismo Primitivo. A tradução começou no terceiro século a.C. e foi completada cerca de 132 a.C., inicialmente em Alexandria, mas como também em qualquer lugar.

A Septuaginta é a base para as versões do Antigo Testamento cristão, incluindo a versão Latina Antiga (também conhecida como Vetus Latina), a Eslavônica, a Síriaca, Armênia antiga, Georgiano antigo e também versões Coptas.

A língua da Septuaginta

Algumas seções da Septuaginta podem mostrar semiticismos, ou expressões idiomáticas e frases baseadas em línguas semíticas tais como hebraico e aramaico. Outros livros, como Daniel e Provérbios, mostra uma influência grega forte.