quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Objeções ao Êxodo bíblico: incongruências, anacronismos e possíveis fontes e textos paralelos.

Os números e a logística do Êxodo

De acordo com Êxodo 12:37–38 o número de israelitas era “cerca de seiscentos mil homens a pé, além de mulheres e crianças”, mais muitos não-israelitas e o gado. O livro de Números 1:46 dá uma precisão total de 603.550 homens de 20 anos para cima. É difícil conciliar a ideia de 600.000 homens israelitas com a informação de que os israelitas estavam com medo dos filisteus e egípcios. Segundo a Chronological Index of Jewish History os aproximadamente 600.000 homens, mais mulheres, crianças, idosos e a multidão misturada de não-israelitas teria um número de uns 2 milhões de pessoas. Supondo que essa multidão marchasse formando 10 pessoas lado a lado, e sem contar o gado, eles formariam uma linha de 241 quilômetros de comprimento. A população inteira do Egito em 1250 a.C. é estimada a ter sido entre 3 e 3,5 milhões, e nenhuma evidência foi encontrada para que o Egito tenha sofrido uma catástrofe econômica e demográfica tal como a perda de uma população desta magnitude representaria, e nem o deserto do Sinai hospedou (ou poderia ter hospedado) esses milhões de seres humanos e seus rebanhos.

Alguns pensaram estes números em termos de figuras ou exemplos menores, como por exemplo, leram o termo “600 famílias” ao invés de 600.000 homens, mas cada uma das soluções tem seu próprio conjunto de problemas. A explicação mais provável é que 600.000 simbolize o total da geração destruída de Israel que deixou o Egito, nenhum daqueles que viveram para ver a Terra Prometida, enquanto que 603.550 é uma gematria (um código no qual os números representam letras ou números) para bnei yisra’el kor rosh, que em hebraico antigo significa “Os filhos de Israel, cada Indíviduo”.

Anacronismos

Embora a datação interna da bíblia para o Êxodo seja para o Segundo Milênio a.C., os detalhes apontam para a data do Primeiro Milênio a.C. para a composição do livro do Êxodo: Por exemplo, Ezion-Geber (um dos locais descritos pelo Êxodo), data de um período entre o século 8 e 6 a.C., com uma possível ocupação posterior no século 4 a.C., e os topônimos na rota do Êxodo que foram identificados – Goshem, Piton, Sucote, Ramesses e Cades-Barnéa – apontam para a geografia do primeiro milênio ao invés do segundo milênio a.C.

Similarmente, o receio do Faraó de que os israelitas pudessem se aliar com invasores estrangeiros parece improvável no contexto do fim do segundo milênio a.C., quando a região de Canaã era parte do império egípcio, e o Egito não enfrentava inimigos naquela direção, mas faz sentido no contexto do primeiro milênio a.C., quando o Egito era consideravelmente mais fraco e enfrentou uma primeira invasão do Império Aquemênida e posteriormente do Império Selêucida.

A menção do dromedário em Êxodo 9:3 também sugere uma data posterior de composição – a domesticação difundida do camelo como animal de rebanho é pensada a não ter acontecido antes do fim do fim do segundo milênio a.C., depois que os israelitas já tinham surgido em Canaã, e os camelos não tinham sido difundidos no Egito até cerca de 200–100 a.C.

A Cronologia dos eventos

Da mesma maneira, a cronologia da história do Êxodo sublinha a sua natureza essencialmente religiosa em vez da histórica. O número sete era sagrado à Deus no Judaísmo, e assim que os israelitas chegaram na Península do Sinai, onde eles encontraram Deus, no começo da sétima semana após sua saída do Egito; enquanto na construção do Tabernáculo, que é a morada de Deus entre o seu povo, ocorre 2666 anos depois de Deus criar o mundo, dois terços do tempo através de uma Era de quatro mil anos, que culmina em torno da re-dedicação do segundo templo em 164 a.C.

A Rota de Fuga

O Pentateuco cita os lugares onde os israelitas descansaram. Poucos nomes do começo do itinerário, incluindo Ramesses, Pithom e Sucote, são razoavelmente bem identificados dentro dos sítios arqueológicos, na borda oriental do delta do Nilo, assim como Cades-Barnéa, onde os israelitas passaram 38 anos após voltarem de Canaã [Episódos dos 12 espiões], mas dos outros lugares muito pouco é certo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Linha de tempo do Budismo

Esta linha do tempo é apenas para dar alguns detalhes da história do Budismo, seus eventos marcantes, desde o nascimento de Gautama Buda até os dias atuais. A época de nascimento e morte de Gautama é incerta. Muitos historiadores no começo do século 20 dataram sua vida de aproximadamente 563 a.C. até 483 a.C. Mais recentemente, todavia, sua morte é data de maneira mais recente, entre 411 e 400 a.C., enquanto que no ano de 1988 surgiu a tese que ganhou ampla aceitação de datas dentre do limite de 20 anos mais tarde ou mais cedo ao longo do ano de 400 a.C. para a morte de Buda. Contudo, nenhuma destas cronologias alternativas tem aceitação total por parte dos historiadores.

Budismo Indiano

• 404 a.C. O primeiro concílio Budista é convocado logo após a morte de Buda em 404 a.C. Segundo a tradição budista, um concílio de 500 arhats foi realizado em Rajgir, para acordar os conteúdos do Dharma e do Vinaya. Ananda recitou os Suttas, cada um deles começando pela fórmula: “Assim eu ouvi”. O monge Upali recitou o Vinaya.

• 383 a.C. O Segundo concílio Budista é convocado por Kalasoka, da dinastia Shishunaga, e realizado em Vaishali.

• ~ 250 a.C. O Terceiro Concílio Budista, convocado pelo imperador Ashoka e presidido por Moggaliputta-Tissa, compila o Kathavatthu para refutar as visões heréticas e teorias mantidas por algumas seitas budistas. Os éditos de Ashoka no Império Máuria em apoio ao budismo.

• ~250 a.C. Ashoka envia vários missionários budistas para vários países distantes, como a China, Indochina e reinos malaios no leste e os reinos helenísticos no oeste, de modo a fazer o budismo conhecido por eles.

• 250 a.C. O primeiros textos completamente desenvolvidos em escrita Kharoṣṭhī nas inscrições em Shahbazgarhi e Mānsehrā na região de Gandhāra (que modernamente está em regiões do Paquistão e Afeganistão)

• século 3 a.C. Comerciantes indianos regularmente visitam portos na Península arábica. Isto explica a origem budista e indiana para certos topônimos na região.

• ~ 220 a.C. O Therevada é oficialmente introduzido no Sri Lanka por Mahinda, filho de Ashoka, durante o reinado de Devanampiya Tissa.

• 185 a.C. O general Pushyamitra Shunga derruba o Império Máuria e estabelece o Império Shunga, aparentemente iniciando uma onda de perseguição ao Budismo.

• 180 a.C. o rei Demétrio I da Bactriana invade a India até Pataliputra, e estabelece o reino Indo-grego. Demétrio teve boas relações com a religião budista, e inclusive a fomentou. Sob o Reino Indo-grego (de 180 a.C. – 10 a.C.), o budismo floresceu.

• ~150 a.C. O rei indo-grego Menandro I se converte ao budismo sob o sábio Nāgasena, de acordo com a narrativa do texto Milinda Panha


Expansão do Budismo



• 120 a.C. O imperador chinês Han Wudi (156 – 87 a.C.) recebe duas estátuas douradas de Buda, de acordo com inscrições nas cavernas Mogao, em Dunhuang.


• Século I a.C. O governador indo-grego Teodoro consagra algumas relíquias de Buda, dedicando-as ao deificado “Senhor Shakyamuni”.

• 29 a.C. De acordo com as Crônicas Sinhalesas, o cânone Páli é escrito durante o reinado do rei Vaṭṭagamiṇi (29 – 17 a.C.)

• 2 a.C. O Livro de Han Posterior (Hou Hanshu) menciona a visita, em 2 a.C., de enviados da etnia Yuezhi a capital chinesa, que dão ensinamentos orais dos sutras budistas.

• 67 O apoio de Liu Ying, irmão do imperador Guang Wudi, ao Budismo, é o primeiro caso documento de praticas budistas na China.

• 67 o Budismo chega à China com os dois monges Kasyapa e Dharmaraksha.

• 68 o Budismo é oficialmente estabelecido na China com a fundação do Templo do Cavalo Branco.

• 78 Ban Chao, um general chinês, subjuga o reino budista de Khotan.

• 78 – 101: De acordo com a tradição Mahayana, o quarto concílio Budista toma lugar sob o reinado de Kushana, rei de Kanishka, perto de Jalandar, India.

domingo, 21 de agosto de 2016

A narrativa do Êxodo bíblico e as tradições proféticas em Israel

A forma final do Pentateuco, tal como conhecemos hoje, foi baseada em tradições antigas. Estas tradições deixaram traços em mais de 150 referências através da bíblia. A mais antigas estão possivelmente nos profetas Amós e certamente em Oséias, ambos ativos no século 8 a. C. em Israel, ao contrário o Proto-Isaías e Miquéias, ambos ativos em Judá à mesma época, não existem tais referências. Parece razoável concluir que a tradição do Êxodo fosse importante no reino do Norte no século 8 a.C., mas não em Judá.

Em um recente trabalho [2009], S. C. Russel traça a tradição profética do século 8 a.C. à três variantes originalmente separadas: no reino do Norte de Israel, na Transjordânia e no reino do Sul de Judá. Russel propõe diferentes fundos históricos hipotéticos para cada tradição: para a tradição de Israel, que envolve uma jornada do Egito até a região de Betel, ele sugere que é a memória dos pastores que poderiam se mover para e do Egito em tempos de crise, para a tradição da Transjordânia, que se foca na libertação do Egito sem a jornada pelo deserto, ele sugere a memória da retirada do controle egípcio ao fim da Idade do Bronze Final, e para Judá, cuja tradição é preservada na chamada Canção do Mar, ele sugere a celebração de uma vitória militar sobre o Egito, embora seja impossível sugerir o que essa vitória possa ter sido. 


Referências Bibliográficas

Introduzione alla lettura del Pentateuco, Jean Louis Ska
Images of Egypt in early biblical literature, Stephen C. Russel

A complexidade das provas do êxodo bíblico

Embora a questão da historicidade continue a atrair a atenção popular, muitas historias do antigo Israel não levam em consideração informação recuperável ou mesmo relevante sobre a história da origem de Israel. As evidências arqueológicas não apoiam a história contada no livro do Êxodo, e a maioria dos arqueólogos abandonaram a investigação de Moisés e do Êxodo como uma busca infrutífera. A opinião da maioria dos estudiosos bíblicos modernos é que a história do êxodo foi formada em sua forma presente no período pós-Exílio, embora as tradições atrás da história são mais antigas e podem ser traçadas nos escritos dos profetas do século oitavo a.C. Como muito além do que a tradição pode ir não pode ser contada, presumivelmente uma história original do êxodo jaz escondida em algum lugar dentro das antigas revisões e alterações, mas séculos de transmissão obscureceram sua presença, e sua essência, precisão e data são agora difíceis de se determinar.

Os dados arqueológicos não concordam com o que é esperado da história do êxodo bíblico: não há evidências de que os judeus viveram no Antigo Egito, a Península do Sinai  não mostra sinais de qualquer ocupação por todo o segundo milênio a.C., e até mesmo a região citada como Cades-Barnéa [Kadeh-Barnea], onde os judeus foram ditos terem passado 38 anos, era inabitada antes do estabelecimento da monarquia israelita.

Os estudiosos geralmente concordam que embora a narrativa do êxodo contenha elementos do mais tardar do segundo milênio a.C., não é demonstrado que estes elementos não pudessem pertencer a qualquer outro período e que eles sejam consistentes com o conhecimento que um escritor do primeiro milênio a.C. que estivesse tentando definir uma história antiga do Egito pudesse ter conhecido. Poucos estudiosos continuam a discutir a historicidade ou menos a plausibilidade da história, embora os historiadores do antigo Israel raramente respondam.  Os estudiosos que ainda defendem a historicidade do êxodo avançam em uma série de argumentos para explicar a ausência de provas: possivelmente os registros egípcios da presença dos israelitas e sua fuga podem ter sido perdidos ou suprimidos,  possivelmente (ou provavelmente) os fugitivos israelitas não deixaram nenhum vestígio arqueológico no deserto, possivelmente os enormes números relatados na história foram mal traduzidos, etc.

Referências:

Biblical History and Israel's Past; Brad Kelle , Megan Bishop Moore; pág. 88-90
História da Religião de Israel, George Fohrer.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A controvérsia do Massacre dos Inocentes

O Massacre dos Inocentes não é mencionado além do Evangelho de Mateus 2:16 e em nenhum dos escritos cristãos posteriores provavelmente baseados neste evangelho. O historiador judaico-romano Josefo, que viveu no I século da nossa era, não menciona isso em seu livro Antiguidades dos Judeus (c. 94 d.C.). Desde que todas as evidências canônicas dos eventos ocorridos são encontradas apenas no Evangelho de Mateus, os estudiosos do Novo Testamento como Daniel J. Harrington tem dito que a historicidade do evento é “uma questão aberta que provavelmente nunca será definitivamente decidida”. Muitos biógrafos recentes de Herodes negam que o evento tenha ocorrido.

Todo ano, na tradição judaica, o Sêder de Pessach relembra a morte dos primogênitos no Egito. Durante a contagem do Ômer, as mortes dos estudantes de Rabbi Akiva são lembradas na tradição judaica. Assim, tragédias envolvendo mortes massivas, tanto de grandes ou menores magnitudes, e antes e depois, as historias dos evangelhos são lembradas pela tradição judaica. Todavia, não existe nenhum feriado referente, dia de jejum ou outra menção de Herodes ordenando as mortes das crianças judaicas na observância judaica. Os judeus, que o evangelho alega terem tido suas crianças mortas por Herodes, se silenciam sobre este evento.

Entre os historiadores que duvidam da historicidade do massacre, Geza Vermes e E. P. Sanders, consideram a história como a parte de uma hagiografia criativa. Muitos estudiosos argumental que a historia é um dispositivo apologético ou um cumprimento forjado de uma profecia, enquanto outros apontam para o silêncio de Josefo, que registrou muitos exemplos do uso da violência de Herodes para proteger seu poder, incluindo o assassinato de seus próprios filhos. Robert Eiseman argumenta que a história pode ter suas origens no assassinato dos filhos de Herodes, um ato que produziu uma profunda impressão na época. David reconhece que o episódio “contém nada que seja historicamente impossível”, mas adiciona que o interesse real de Mateus é uma reflexão teológica sobre o tema do cumprimento do Antigo Testamento. Stephen Harris e Raymond Brown similarmente argumentam que o propósito de Mateus é apresentar Jesus como o Messias, e o Massacre dos Inocentes como o cumprimento das passagens em Oséias (referindo-se ao Exodo), e Jeremias (referindo-se ao exílio babilônico). Brown também vê a história como modelada na narrativa do livro de Êxodo do nascimento de Jesus e a décima praga, que o envolveu o assassinato dos primogênitos hebrews por Faraó (Exodo 11:5). Brown e outros argumentam que, baseados na população estimada de Belém de 1000 habitantes na época, o maior número de crianças que poderia ter sido assassinadas teria sido vinte, e R. T. France, abordando a ausência da historia nas Antiguidades dos Judeus, argumenta que o “assassinato de poucas crianças em uma pequena vila não está uma escala para se encaixar o maior número de assassinatos espetaculares registrados por Josefo”.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cristianismo e Tempo Linear

A tese defendida por Mircea Eliade em sua obra “O Mito do Eterno Retorno” é que a mais importante diferença entre o homem das sociedades arcaicas e tradicionais, e o homem das sociedades modernas, com sua forte marca judaico-cristã, encontra-se no fato de o primeiro sentir-se indissoluvelmente vinculado com o Cosmo e os ritmos cósmicos, enquanto que o segundo insiste em vincular-se apenas com a História. Mas para isso temos que analisar primeiro a relação destas duas religiões com o tempo linear, lembrando que, na opinião de muitos estudiosos, o judaísmo é a primeira religião da história conhecida.
Mircea Eliade vê as religiões abraamanicas como um ponto de divisão entre a antiga visão cíclica do tempo e a moderna visão linear do tempo, notando que, no caso delas, os eventos sagrados não estão limitados à uma era primordial distante, mas continuam através da história: “o tempo não é [apenas] o Tempo Circular do Eterno Retorno, ele se tornou o Tempo Linear e irreversível”. Ele então vê o Cristianismo como exemplo final de uma relação que abraça o tempo linear e histórico. Quando Deus se torna um homem, dentro da linha da história, “toda a história se torna uma teofania”. De acordo com Eliade, o “Cristianismo se esforça para salvar a história”. No cristianismo, o Sagrado entra em um ser humano (Cristo) para salvar humanos, mas ele também entra na história para “salvar” a história e transformar eventos históricos ordinários em algo “capaz de transmitir a mensagem trans-histórica”.
Da perspectiva de Eliade, a mensagem trans-histórica do Cristianismo pode ser a mais importante ajuda ao homem moderno poderia ter ao confrontar o terror da história. Assim, ainda na perspectiva de Eliade, a história de Cristo se torna o mito perfeito para o homem moderno. No cristianismo, Deus de bom grado entrou no tempo histórico ao nascer como Cristo, e aceitou o sofrimento a ser seguido. Por identificar-se com Cristo, o homem moderno aprende a confrontar os eventos históricos dolorosos. Em última análise, Eliade vê o cristianismo como única religião que pode salvar o homem do “Terror da história”.
Na visão de Eliade, o homem tradicional ou das sociedades arcaicas vê o tempo como uma repetição sem fim dos arquétipos mitológicos. Em contraste, o homem moderno abandou os arquétipos mitológicos e entrou no tempo linear e histórico, neste contexto, ao contrário de muitas outras religiões, o Cristianismo atribui valor ao tempo histórico. Assim, Eliade conclui, “O Cristianismo incontestavelmente prova ser a religião do “homem decaído”, do homem moderno que perdeu “o paraíso dos arquétipos e da repetição”.

Bibliografia e Referências
O Mito do Eterno Retorno, Edições 70, M. Eliade.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A diversidade do Cristianismo Primitivo


O Cristianismo Moderno é amplamente diverso, em termo de suas estruturas sociais, crenças e práticas. Mas esta diversidade é leve em comparação com o Cristianismo durante os três primeiros séculos.

Quando falamos do Cristianismo no mundo moderno nós naturalmente pensamos de uma coisa. Mas ao mesmo tempo, nós sabemos que o Cristianismo é, em fato, uma ampla variedade de coisas. Isto pode ser visto no domínio de crenças de diferentes cristãos, incluindo tanto as crenças majoritárias como aquelas referentes a Deus, a natureza de Jesus e a ressurreição de Jesus. Muitos cristãos pensam de Deus como um ser pessoal, uma espécie de “superhumano” no céu. Outros acham isso blasfemoso ao fazer Deus em nossa própria imagem. Ainda outros vêem Deus como uma força impessoal que está atrás de tudo o que vive no universo. Muitos cristãos colocam grande importância na crença de que Jesus morreu na cruz pela salvação. Outros colocam mais ênfase em sua vida e ensinamentos morais. Para alguns cristãos a ressurreição é uma reanimação física e verdadeira do corpo de Jesus. Outros consideram a ressurreição de Jesus como sendo uma alegação simbólica. O inferno, para alguns cristãos, é o destino daqueles que não mantiveram as crenças corretas. Outros consideram o inferno a ser uma metáfora para a vida separada de Deus.

O mesmo pode ser dito das práticas cristãs, tais como batismo e Eucaristia (comunhão), para não mencionar as práticas incomuns de algumas comunidades cristãs (manejo de serpentes, batismo pelos mortos). O Batismo pode significar, por exemplo, um rito que remove o pecado original, o substituto cristão para circuncisão, um sinal exterior de limpeza espiritual ou um caminho para a salvação. Alguns cristãos acreditam que tomando parte na comunhão, eles estão literalmente comendo o corpo e o sangue de Cristo, enquanto que, para outros cristãos, a Eucaristia é um alimento simbólico. De particular relevância para esta série de lições são as amplamente diferentes visões das Escrituras entre os diferentes grupos cristãos hoje, tanto seu conteúdo (quais livros realmente pertencem?) e seu caráter (em qual maneira, ao todos, foram eles inspirados?). Como foram as decisões sobre quais livros deveria ser incluídos? Quem fez estas escolhas e em quais fundamentos? São todas as Escrituras Cristãs a literal e precisa palavra de Deus?

Assim, a despeito daquilo que podemos imaginar, a Cristandade não é monolítica, e nunca foi. Nesta lição, consideraremos as variedades de Cristianismo no mundo antigo, variedade que fazem as modernas diferenças entre os cristãos parecerem inofensivas por comparação. Em particular, olharemos as primitivas formas de Cristianismo que não sobreviveram, que se extinguiram, que perderam a luta para converter adeptos e estabelecer domínio, formas de Cristianismo que então se tornaram perdidas. E nós estaremos especialmente interessados em explorar as Escrituras destes Cristianismos perdidos, para ver o que eles alegados seguidores de Jesus acreditam e como esperavam agir.

É importante considera o escopo da nossa investigação. Nosso tempo de referência cobrirá o período imediatamente posterior ao Novo Testamento até o famoso Concílio de Nicéia no início do século quatro: rudemente os vários cristianismos do secundo e terceiro séculos da nossa era. Uma ampla variedade de crenças é encontrada no Novo Testamento, mas este assunto é abrangido já em outro curso de lições. Para esta lição, é importante apontar que existiam muitas diferentes espécies de livros no Novo Testamento e que eles eram escritos por diferentes autores, em diferentes tempos, para diferentes públicos e com diferentes mensagens. Em muitas instâncias, estas mensagens não são apenas levemente diferentes, mas elas parecem representar diferentes interpretações do significado de Jesus, o caminho da salvação e a relação da fé em Jesus com a religião dos judeus.

Estas dificuldades continuaram no segundo e terceiro séculos. Nós terminaremos nossa investigação no começo do quarto século, a cerca da época do Concílio de Nicéia, por que é onde nós encontramos a primeira publicação oficia de uma crença cristã “ortodoxa”, que por uma vez e por todas eliminou, para a maioria dos cristãos, muitas das opções primitivas. Nosso assunto não é o amplo domínio de antigas religiões neste período, mas apenas os grupos religiosos que alegavam ser cristãos, ou seja, que alegavam aderir a religião ensinada por Jesus e seus seguidores. A extensão de crenças entre estes grupos religiosos é notável, seja com respeito a Deus (Havia apenas um?), seja com relação ao mundo (Foi ele criado por um Deus verdadeiro?), Seja com relação a Cristo (Era ele humano? Divino? Ambos?), com relação à sua morte (Havia ele morrido pelos pecados? Havia ele mesmo morrido?), e uma variedade de outras doutrinas críticas.

Esta variedade de crenças cristãs primitivas levanta uma importante questão: Por que os vários cristãos primitivos que mantinham tais crenças bizarras simplesmente não liam o Novo Testamento para ver se eles estavam errados? A resposta por ser óbvia para alguns, mas surpreendente para outros. Estes cristãos do segundo e do terceiro séculos não liam o Novo Testamento porque o Novo Testamento simplesmente ainda não existia.

Os livros em si, naturalmente, já haviam sido escritos, mas eles não tinham sido coletados em um sagrado e autorizado canon de Escritura. O termo canon se refere a uma coleção de livros autorizados. Um dos pontos que nós aprenderemos é que o nosso canon não existia como uma coleção oficialmente reconhecida durante os segundo e terceiro séculos. Os vinte e sete livros que inicialmente fizeram parte do canon do Novo Testamento representam os vinte e sete livros escritos pelos seguidores de Jesus na segunda metade do primeiro século. O canon consiste de quatro tipos de livros: Evangelhos (histórias da vida de Jesus); o Livro de Atos (uma narrativa da vida e ministério dos apóstolos após a morte de Jesus); Epístolas (cartas escritas por cristãos individuais ou grupos); e o Apocalipse (uma narrativa do que se tornará conhecido no final do tempo). Outros livros foram escritos no mesmo tempo, contudo, também alegando serem escritos por seguidores de Jesus. Cada um dos primitivos grupos cristãos que mantinham suas crenças e práticas distintas tinha livros que eram creditados a terem sido escritos pelos próprios apóstolos de Jesus: Evangelhos, por exemplo, alegadamente escritos por seus discípulos Tomé, Filipe e Maria Madalena.

Para colocar contexto para estas questões, é importante compreender alguns traços básicos da expansão do Cristianismo do tempo de Jesus até o início do quarto século se espalhando em diferentes partes do mundo romano com o tempo, com compreensões distintas do que significava ser um seguidor de Jesus e escritos autorizados distintos para seus pontos de vista. A existência destas “outras” Escrituras conduz a outras questões. Se, no secundo e terceiro séculos, haviam muitos livros apostólicos lidos pelos muitos grupos de cristãos, quais deles eram certos? Quais errados? Quais eram de fato escritos por apóstolos? Como saberíamos? Melhor ainda, como os padres da Igreja que finalizaram o nosso canon de vinte e sete livros sabiam? E o que aconteceu então a todos os outros livros que não fizeram parte, uma vez que estes debates cristãos particulares foram encerrados?

Estas serão as controvérsias que nós dirigiremos neste curso, assim como olharemos outras formas de Cristianismo que não “venceram” e as Escrituras que estas formas de cristianismo recorreriam, algumas das quais nós conhecemos há um bom tempo, outras que foram descobertas em tempos modernos por arqueologistas e minuciosos beduínos. A seguir estão algumas das questões que iremos indagar: O que nós sabemos destes vários grupos? Que espécie de escritos autorizados ele tinham para seus pontos de vista? Nós temos o remanescente de qualquer um destes livros? O que eles dizem? Como um grupo terminou vencendo a disputa? E como nosso atual canon do Novo Testamente emergiu disso? ∎

Leitura Essencial

After the New Testament, Barth Ehrman, capítulos 1, 6-9
The New Testament Canon: Its Making and Meaning, Harry Gamble

Apresentação ‒ Cristianismos Perdidos: As Escrituras cristãs e as Batalhas sobre autenticação

Escopo

Os cristãos do segundo e terceiro séculos mantiveram uma considerável extensão ampla de crenças.  Embora algumas destas crenças possam soar ridículas hoje, naquele tempo elas pareciam não apenas sensíveis mas corretas.  Alguns cristãos sustentavam que haviam dois deuses, ou doze, ou trinta ou mais. Alguns cristãos alegavam que Jesus não era realmente um ser humano, ou que ele não era realmente divino, ou que ele era dois diferentes seres: um humano e um divino. Alguns cristãos acreditavam que este mundo não era criado por um Deus Verdadeiro, mas por uma deidade maligna para punição para as almas humanas, que tinham se tornado aprisionadas aqui em corpos humanos. Alguns cristãos acreditavam que a morte de Jesus e sua ressurreição não tinham nenhuma relação com a salvação, e alguns cristãos acreditam que Jesus não tinha de fato morrido.
Cristianismos Perdidos é um curso que considera as variedades de crenças e práticas nos primitivos dias do Cristianismo, antes que a igreja decidisse o que era teologicamente aceitável e determinasse quais livros seriam incluídos em seu canon da Escritura. Parte da disputa sobre crença e prática na igreja primitiva era sobre o que deveria ser aceito legitimamente como “cristão” e o que deveria ser condenado como “heresia”. Este curso considera o debate para ortodoxia (i.e., crença correta) e a tentativa de classificar, repelir e derrotar a heresia (i.e., falsa crença). Em particular, o curso tenta compreender os cristãos que foram mais tarde considerados heréticos em seus próprios termos e explorar os escritos que estavam disponíveis e poderiam ser apelados para apoio de seus pontos de vista.
Os cristãos hoje, naturalmente, pensam tipicamente sobre o Novo Testamento como a base para uma correta compreensão da fé. Mas o que era o Cristianismo antes que existisse o Novo Testamento? É impressionante como todos os grupos cristãos antigos, com suas diferentes visões sobre Deus, Cristo, salvação e o mundo, tivessem livros que – como aqueles que eventualmente entraram no Novo Testamento – alegavam serem escritos pelos próprios apóstolos de Jesus. Alguns destes pseudopigráficos (i.e., falsamente atribuídos) livros foram descobertos por arqueologistas e beduínos no Egito e no Oriente Médio em tempos modernos, evangelhos, por exemplo, que alegam a serem escritos pelos discípulos de Jesus Pedro, Tomé e Filipe. Estes pseudepigráficos retratam uma diferente compreensão do cristianismo de um que se tornou dominante na história da religião e é familiar a maioria das pessoas hoje. Neste curso, nós estudaremos estes livros não-canônicos e as formas de crença cristã que eles representavam, do segundo e terceiro séculos, i.e., do tempo imediatamente posterior à morte dos apóstolos de Jesus até o tempo quando muitos destas primitivas compreensões do Cristianismo tinham sido eliminadas da igreja, deixando a única forma de “ortodoxia” que se tornou triunfante no início do século quarto com a conversão do Imperador romano Constantino.
O curso é dividido em muitos componentes. Depois de uma lição introdutória que lida com a diversidade ampla do Cristianismo nos mundos moderno e antigo, nós iniciaremos uma discussão de três formas de Cristianismo que foram altamente influentes durante o secundo e o terceiro séculos cristãos: os Ebionitas, um grupo de cristãos que insistia em manter sua identidade judaica enquanto acreditando em Jesus; os Marcionitas, um grupo que rejeitou tudo o que era judaico de suas compreensões de Jesus; e os Gnósticos, um grupo de vasto alcance e que compreendia que este mundo era um local maligno de prisão do qual alguém poderia escapar por aprender a verdade sobre sua identidade através dos ensinamentos secretos de Jesus.
Nós então começaremos por considerar, em lições separadas, importantes livros lidos e reverenciados por cada um destes grupos e pelo grupo que representava os antepassados do tipo de Cristianismo que eventualmente se tornaria dominante no Império, um grupo que classificaremos como “proto-ortodoxo” (porque eles mantiveram os pontos de vista que eventualmente vieram a serem declarados ortodoxos). Muitos destes livros são pseudônimos, forjados em nome de um ou outro dos apóstolos. Incluídos em nossa consideração estarão os “Evangelhos Gnósticos”, tais como o Evangelho de Tomé; os “Evangelhos da Infância”, que narram eventos fictícios da vida de Jesus como uma criança e adolescente; “Atos Apócrifos”, que narra descrevem as divertidas fugas dos muitos apóstolos de Jesus (incluindo a mulher Tecla) após sua morte; as “Epístolas Apócrifas” alegadamente escritas pelo apóstolo Paulo ou outros; e um apocalipse apócrifo, uma descrição de uma viagem guiada pelo céu e inferno dado ao apostolo Pedro pelo próprio Jesus.
Após considerar estes fascinantes documentos, muitos dos quais vieram ao nosso conhecimento apenas durante o século vinte, nós voltaremos a considerar os conflitos entre as várias formas de cristianismo nos primeiros séculos, para ver como ver como é que se compreender a fé que veio a ser dominante e esmagar toda sua oposição. Na seção final do curso, nós consideraremos como o partido proto-ortodoxo se revestiu de poder eclesiástico em seu clero (formando a estrutura e hierarquia que se tornaria o suporte da igreja durante a Idade Média); desenvolveu o seu canon da Escritura (o Novo Testamento, que não foi finalizado como canon até o fim do século quatro); e formulou credos padrões(como, por exemplo, o Credo dos Apóstolos e o Credo Niceno) como declarações de fé a serem adereçadas a todos os crentes, eliminando assim a possibilidade de compreensões alternativas do que poderia significar ser um seguidor de Jesus.

domingo, 17 de agosto de 2014

Sacricios Humanos à Iahweh, o Deus do Antigo Testamento

O sacrifício humano é o ato de se matar um ou mais seres humanos, geralmente como oferecimento à uma divindade, como parte de um ritual religioso. Sua tipologia é próxima às várias práticas de sacrifícios animais em geral. O sacrifício humano tem sido pratico em várias culturas ao longo da história. As vítimas era tipicamente mortas de uma maneira que era entendida agradar ou aplacar deuses, espíritos ou mortos, como exemplo de uma oferta propiciatória, ou ou como um sacrifício de retenção quando os servos do rei são mortos para que eles continuem a servir o seu mestre na próxima vida. Relatos de prática parecidos são encontrados em algumas sociedades tribais que eram canibais e caçadores de cabeça. Na Idade do Ferro, com os desenvolvimentos associados nas religiões (A chamada Era Axial), o sacrifício humano se tornou casa vez menos comum no mundo antigo, e se tornou menosprezado e visto como bárbaro nas eras pré-modernas (Antiguidade Clássica).

Nos tempos modernos, até mesmo a prática de sacrifício animal tem virtualmente desaparecido da maior parte das religiões, e o sacrifício humano se tornou extremamente raro. A maioria das religiões condena a prática, e no presente tempo e com as leis seculares isso é tratado como assassinato.

Sacrifícios Humanos atestados no Antigo Testamento

É interessante notar o que Voltaire diz em seu Traité sur la Tolérance:

Moisés ordenou matar todas as crianças do sexo masculino e todas as mães e dividir o espólio (Números 31). Os vitoriosos encontraram nos campos 675.000 ovelhas, 72.000 biusm 61.000 asnos e 32.000 mulheres jovens; fizeram a partilha e mataram o resto (Números, Cap. 31, vers. 32 e seguintes). Vários comentadores acreditam mesmo que trinta e duas jovens muleres foram imoladas ao Senhor: “Cesserunt in partem Domini triginta duae animae” (Números Cap. 31, vers. 40)

Com efeito, os judeus imolavam homens à divindade Iahweh, como o testemunha o sacrificio de Jefté ¹, como o testemunha o rei Agague, cortado em pedaços pelo sacerdote Samuel ². O próprio Ezequiel (Cap. 39, Vers. 20) lhes promete, para encorajá-los, que vão comer carne humana: “Irão comer o cavalo e o cavaleiro; beberão o sangue dos príncipes”. Vários comentadores aplicam dois versículos dessa profecia aos próprios judeus e os outros aos animais carniceiros.

Notas

¹ Pelo texto (Juízes, 11, 39), é certo que Jefté imolou sua filha. Dom Calmet, em sua Dissertation sur le voeu de Jephté, escreve : “Deus não aprova esses votos, mas quando foram feitos, quer que sejam cumpridos, mesmo que fosse para punir aqueles que os faziam ou para reprimir a leviandade demonstrada ao fazê-los, se não tivessem receado o cumprimento”. Santo Agostinho e quase todos os Padres da Igreja condenam a ação de Jefté. É verdade que a Escritura (Juízes, 11, 29) diz que ele foi possuído pelo espírito de Deus, e São Paulo, em sua Epístola aos Hebreus (11, 32), elogia Jefté; ele o coloca ao lado de Samuel e Davi. São Jerônimo, em sua Epístola a Juliano, escreve: “Jefté imolou sua filha ao Senhor e é por isso que o apóstolo o enumera entre os santos.” Aí estão, de parte e de outra, julgamentos sobre os quais não é permitido emitir o nosso; devemos até mesmo ter medo de arriscar um.

² Podemos considerar a morte do rei Agague como um verdadeiro sacrifício. Saul tinha feito esse rei dos amalequitas prisioneiro de guerra e o havia levado por acordo feito, mas o sacerdote Samuel lhe havia ordenado de não poupar nada. Tinha prometido a ele pessoalmente: “Mata tudo, desde o homem até a mulher, até as crianças e e até aqueles que ainda estão mamando” . Dom Calmet diz: “Samuel cortou o rei Agague em pedaços, diante do Senhor, em Gilgal. O zelo de que estava animado esse profeta lhe pôs a espada nas mãos nessa ocasião para vingar a glória do Senhor e para confundir Saul.” Vemos, nesse caso fatal, um voto, um sacerdote, uma vítima: era portanto um sacríficio.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Imago Mundi, a «Imagem do Mundo»

Imago Mundi ou “Imagem do mundo”, o cosmos a partir do habitat do homem religioso (homo religious). Além disso, para o homem religioso, o cosmos em seu nascimento se espalhou para fora do centro. Consequentemente, quando emprendia novas obras, homem religioso, por analogia, organizava o exterior a partir de um ponto central.

Assim, uma nova aldeia podia ser desenvolvida a partir de um cruzamento para fora, dando-lhe quatro zonas. Tal plano fazia uma nova construção de um imago mundi, uma representação do cosmos nos fundamentos.Compreendendo o seu mundo desta forma, homem religioso compreendia  os ataques de inimigos como a obra de demônios, os inimigos da criação divina que ameaçavam retornar a criação ao estado de caos. Normalmente, esses demônios foram representados como os dragões, serpentes, monstros marinhos, etc; e na verdade o próprio caos pode ser representado como um dragão.Mircea Eliade observa que algo desta forma de pensamento persiste em seu mundo contemporâneo, em idéia de forças das trevas que ameaçam mergulhar a civilização no caos. Voltando ao imago mundi, , Eliade assinala que homem religioso via em sua morada a mesma ordem cósmica representada na construção. Assim, os povos cujas tendas ou cabanas tinha um posto central ou pilar poderiam entendê-la como um axis mundi, apoiando 'nosso mundo' e lingado-o ao céu.

Axis Mundi? Bem, isso é assunto para outro tópico...

terça-feira, 8 de julho de 2014

Bíblia abriga duas versões do Dilúvio

A narrativa do Dilúvio do Gênesis compõe os capítulos 6-9 do livro de Gênesis, na Bíblia. A narrativa, uma dos muitos mitos sobre inundações encontradas em várias culturas humanas, indica que Deus quis retornar a Terra ao estado de pré-criação do caos aquático inundando a Terra por 370 dias (150 dias de inundação + 220 dias para secar as terras inundadas) por causa dos delitos da humanidade, e então refazê-la usando o microcosmo da Arca de Noé. Assim, o dilúvio não foi uma inundação ordinária, mas uma reversão da criação. A narrativa discute a maldade da humanidade que levou Deus a destruir o mundo por meio do Dilúvio, a preparação da arca para certos animais, Noé e sua família e a garantia de Deus para a existência da vida sob a promessa de ele nunca mais enviaria outro dilúvio.

Embora o consenso dos estudiosos desde o século 19 tem sido o de que esta história não pode ser literalmente verdadeira, alguns grupos religiosos ainda abraçam amplamente a história da Arca. Entre outras questões e problemas estão as imensas dificuldades de explicar como coletar, abrigar, dar de beber, alimentar e cuidar de um grande número de animais em um navio de madeira menor do que muitos navios modernos poderia ser geograficamente encontrada. Por esta e outras razões a história da arca de Noé é geralmente considerada como uma lenda.

Origens e composição

Estudiosos afirmam que a narrativa do Genesis é composta de duas histórias diferentes que foram combinadas na forma final canônica de Genesis 6-9. Alguns acadêmicos chamam estas de Fonte Javista (YHWH) e Fonte Sacedotal (Elohim). Cotter lista algumas das notáveis dificuldades entre as duas fontes: duas razões diferentes são dadas para o porquê do dilúvio acontecer, à Noé são das duas diferentes instruções sobre os animais e aves serem aceitos a bordo na arca, existem dois prazos diferentes dados para quanto tempo durou o dilúvio, existem diferentes explicações explicações para a "natureza das águas do Dilúvio", diferentes circunstâncias pelas quais Noé e os animais deixaram a Arca e dois "nomes divinos" Elohim e Yahweh são usados.

Barry L. Bandstra afirma que existem diferenças no estilo característico e vocabulário, e que eles não são totalmente contraditórios. John Byron diz que, quando existem aparentes contradições, eles não são normalmente vistos como erros por estudiosos judeus, mas como alusões a significados mais profundos. Mesmo interpretes posteriores tem procurado descobrir a harmonia básica que subjaz à narrativa, seja escrita por diferentes autores, em tempos diferentes, ou em diferentes culturas.

O Dilúvio Bíblico na Mitologia Comparada

A narrativa do dilúvio do Gênesis é mais uma de numerosos mitos de inundação. Muitos estudiosos acreditam que a história de Noé e do Dilúvio Bíblico são derivadas das versões mesopotâmicas predominantemente porque a mitologia bíblica que hoje é encontrada no Judaismo, Cristianismo, Islamismo e Mandeísmo é consistente com as antigas histórias da Mesopotâmia escritas sobre o Grande Dilúvio, e que alguns dos primitivos hebreus viveram na Mesopotâmia, durante, por exemplo, o cativeiro babilônico. O mais antigo mito escrito sobre o dilúvio é o mito do dilúvio sumeriano, encontrado no Épico de Ziusudra. Histórias similares e mais recentes são encontradas nos textos do Épico de Gilgamesh e do Épico de Atrahasis.

A Narrativa do Dilúvio: Os Nefilins (נְפִלנ ְפִיל)

Gênesis 6:1–4 apresenta os Filhos de Deus se unindo às filhas dos homens e gerando uma raça de gigantes, "os homens valentes da antiguidade, homens de renome". O Gênesis continua: "E o Senhor viu que a maldade do homem era grande na terra. e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração era má continuamente". Deus decidiu destruir o que ele tinha feito e começar de novo com o justo Noé. Deus escolheu o dilúvio como instrumento da destruição que é retratada como uma verdadeira inversão da criação.

O Julgamento de Deus

Na narrativa do Gênesis, o dilúvio ocorre porque Deus julga a humanidade. Nos versos 6:5-8, Yahweh (ou "O Senhor") julga a humanidade por ser perversa e má. Nos versos 6:11-22, Deus julga a humanidade por ser corrupta e violenta.  O julgamento nos versos 6:5-8 é pensado a ter sido escrito antes e combinado posteriormente com a segundo. Este elemento do julgamento faz com que a história do dilúvio bíblica se diferencie do dilúvio do babilônico Épico de Gilgamesh. Na história de Gilgamesh o dilúvio é mencionado apenas em passagem da própria narrativa do Épico, e aparece como tendo sido resultado de um capricho politeístico, e não o supremo julgamento de um Deus moral. Contudo na versão do Atrahasis da história babilônica do dilúvio (que lida diretamente com a inundação), fica claro que o dilúvio foi enviado pelos deuses para reduzir a superpopulação humana, e depois do dilúvio outras medidas foram introduzidas para prevenir que o problema acontecesse novamente.

Preparando a Arca

Começando com Genesis 6:14, Deus dá instruções à Noé para construir um navio à prova d'água que iria abrigar sua família, juntamente com uma amostra de cada vida animal. O navio é uma arca feita de madeira gôfer coberta por piche por dentro e por fora. A Arca era para ter 300 côvados de comprimento, 50 metros de largura e 30 côvados de altura e com uma abertura para a entrada da luz do sol no alto, uma entrada em um lado e três plataformas. Deus disse à Noé que ele, seus filhos, sua esposa e as esposas de seus filhos, e dois exemplares de cada espécie - macho e fêmea - sobreviveriam na Arca (Genesis 6:1–22). Sete dias antes do Dilúvio, Deus disse à Noé para entrar na Arca com sua família, e para levar sete pares de cada animal limpo e cada pássaro, e um par de cada um dos outros animais, para manter sua espécie viva (Genesis 7:1–5)

O Grande Dilúvio

A fonte Sacerdotal (Elohim) descreve a natureza das águas do dilúvio como um cataclisma cósmico, pela abertura das nascentes das profundezas e das comportas ou janelas do céu. Isto é o reverso da separação das águas mencionados na narrativa da criação de Gênesis 1. Depois que Noé e o restante dos animais estavam seguros, as fontes do grande abismo e as comportas ou janelas do céus foram abertas, causando uma chuva sobre a Terra por 40 dias. As águas se elevaram, com os picos das montanhas mais altas sob 15 côvados de água, inundando o mundo por 150 dias, e retrocedendo em 220 dias.

A versão javista (YHWH) de como as águas do dilúvio vieram a surgir é indicada em  Gênesis 7:12, onde elas se desenvolvem por meio de uma chuva torrencial que dura ao menos 40 dias, e então recua em períodos de sete dias. Durante este tempo, a Arca repousou sobre as montanhas de Ararate, onde Noé abre a janela e enviou um corvo para fora, que foi de lá para cá. Então ele soltou uma pomba para ver se as águas haviam diminuído, mas a pomba não pode encontrar um lugar para descansar, e retornou à Arca. Ele esperou outros setes dias, e novamente soltou a pomba, e a pomba voltou à noite trazendo um ramo de oliveira. Ele esperou outros sete dias e soltou a pomba, e ela não retornou. Quando Noé removeu a cobertura da Arca, ele viu que a terra estava seca (Genesis 8:1–13).

O Pacto do Arco Iris

Deus faz um pacto de garantia com Moisés em  Genesis 9:1–17. A Versão Sacerdotal (Elohim) assume a forma de uma forma de Aliança. Este é o primeiro ato explicito de uma aliança ou pacto na Bíblia Hebraica e é usada sete vezes neste episódio. Deus se empenha em continuar tanto a vida humana como animal e promete nunca mais usar um segundo dilúvio contra a humanidade. O pacto é selado com um sinal de um arco íris, após a tempestade, como um lembrete.

Deus abençoa Noé e seus filhos usando a mesma linguagem da Fonte Sacerdotal sobre a narrativa da criação do Gênesis. "Sejam frutíferos e aumentem e encham a Terra". Antes do Dilúvio animais e homens coexistiam em um domínio de paz e apenas conhecendo uma dieta vegetariana. Depois do Dilúvio, Deus sustentou que a humanidade seria responsável sobre os animais, garantindo que eles poderiam servir como alimento sob a condição que o seu sangue fosse retirado. Deus estabeleceu estas regras de pureza bem antes de qualquer transação com o Antigo Israel, e efetivamente não se limitaria tal procedência exclusivamente à fé judaica. A vida humana recebe sanção divina especial porque a humanidade é uma imagem de Elohim (Deus)

Tabela: Os elementos das fontes Sacerdotal (P) e Javista (J) da narrativa do dilúvio (Gênesis 6-9)



Fonte Sacerdotal
Fonte Javista
Título e Introdução
Punição divina por causa                 6:11:13
da maldade humana
Punição divina por causa                   6:5-8
da maldade humana
Noé é ordenado a construir             6:14-18a
uma Arca
Noé é ordenado a levar sua            6:18b-22
família e dois exemplares de
cada espécie animal dentro
da Arca.
Noé é ordenado a levar                     7:1-5
sua família, sete pares
de cada animal limpo e
um par de cada animal impuro
dentro da Arca.
Idade de Noé                                          7:6
Data do Dilúvio                                     7:11
A chuva cai por mais de 40 dias          7:12
Noé, sua família e os                     7:13-16a
animais entram na Arca
Noé, sua família e os                       7:7-10
animais entram na Arca
O dilúvio vem sobre a Terra                 7:17a
O dilúvio vem sobre a Terra     7:16b e 17b
Descrição do Dilúvio                         7:18-21
Descrição do Dilúvio                      7:22-23
A inundação dura 150 dias                     7:24
Deus termina o dilúvio                      8:1-2a
O Dilúvio termina                         8:2b-3a
As águas recuam e a                        8:3b-5
Arca para sobre Ararat
Noé envia pássaros                         8:6-12
para testar o nível das águas
Data da secagem do                 8:13a e 14a
Dilúvio
Noé vê que a Terra está seca            8:13b
Noé é ordenado a deixar a                8:15-19
Arca
Noé sacrifica a Deus                      8:20-22
Deus faz um pacto com Noé               9:1-17
Duração da vida de Noé                   9:28-29

Referencias Bibliográficas

The Pentateuch A Story of Beginnings, Paula Gooder, T&T Clarck Approaches to Biblical Studies, páginas 38 e 39

segunda-feira, 7 de julho de 2014

As Duas Narrativas Contraditórias da Criação do Genesis

Fontes e Origens do Pentateuco

Embora a tradição atribua a composição do livro de Gênesis à Moisés, os estudiosos bíblicos asseguram que, junto com os outros quatro livros restantes (perfazendo o que os judeus chamam de Torá e os estudiosos bíblicos chamam de Pentateuco) é "um trabalho composto, o produto de muitas mãos e períodos". Uma hipótese comum entre os estudiosos bíblicos hoje é de que a maior parte abrangente do Pentateuco foi composta amplamente nos séculos 7 ou 6 a.C. ( a fonte Javista), e que esta foi mais tarde expandida pela adição de várias narrativas e leis (a fonte Sacerdotal) em um trabalho que é muito similar ao existente hoje. As duas fontes aparecem em ordem reversa:   Genesis 1:1–2:3 é Sacerdotal e Genesis 2:4–24 é Javista.

Quanto ao contexto histórico que conduziu a criação da narrativa em si, a teoria que tem ganhado interesse notável, embora ainda controversa, é a "Autorização Imperial Persa". Ela propõe que os persas, após sua conquista da Babilônia em 538 a.C., concordaram em garantir à Jerusalém uma ampla medida de autonomia local dentro do Império, mas exigiram das autoridades locais que produzissem um único código de leis aceito por toda a comunidade. Isso implica que existiam dois grupos poderosos na comunidade: as famílias sacerdotais que controlavam o Templo, e as famílias proprietárias de terras que se compunham pelos "anciãos", e estes dois grupos estavam em conflito por muitos motivos, e cada um tinha sua própria "história das origens", mas a promessa persa de uma maior autonomia local para todos deu um poderoso incentivo na cooperação na produção de um único texto.

Estrutura das Duas Narrativas

A narrativa da criação é feita de duas histórias, grosseiramente equivalente aos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis (Lembrando que não existem divisões de capítulos no texto hebraico original). A primeira narrativa (1:1 à 2:3) emprega uma estrutura repetitiva de fiat divino e realização, então a sentença: "E houve tarde e manhã, o ...ésimo dia" para cada um dos seis dias de criação. Em cada um dos três primeiros dias há um ato de separação: o primeiro dia a luz se separa da escuridão, o segundo dia as "águas superiores" das "águas inferiores" e no terceiro dia a terra do mar. Em cada um dos três dias seguintes estas separações ou divisões são povoadas: no quarto dia  a escuridão e a luz são povoadas com o sol, a lua e as estrelas, no quinto dia os mares e céus são povoados com peixes e aves, e finalmente as criaturas terrestres e a humanidade povoam a terra..

As duas histórias são mais complementares do que  sobrepostas, com a primeira (a história Sacerdotal) preocupada com o plano cósmico da criação, enquanto que a segunda (a história Javista) se focando no homem como cultivador do seu ambiente e como um agente moral. Existem paralelos significantes entre as duas histórias, mas também diferenças notáveis: a segunda narrativa, em contraste com o esquema organizado dos sete dias de Genesis 1, usa uma narrativa simples em estilo fluente que procede da formação de Deus do primeiro homem através do Jardim do Éden até a criação da primeira mulher e a instituição do casamento; em contraste com o Deus onipotente de Genesis 1,criando uma humanidade como deus, o Deus de Genesis 2 pode tanto falhar como ter sucesso; a humanidade  que ele cria não é como deus, mas é punida por atos que a levariam a se tornar como deus (Genesis 3:1-24); e a ordem e o método de criação diferem entre si. Juntas, esta cominação de caracteres paralelos e perfis contrastantes apontam para diferentes origens dos materiais em   Genesis 1:1–2:3 e 2:4b–3:23, muito embora eles tenham sido elegantemente combinados.

As narrativas primárias em cada capítulo são unidas por uma "ponte literária" em  Genesis 2:4a: "Estas são as gerações dos céus e da terra quando eles foram criados". Isto ecoa a primeira linha de Genesis 1: "No Princípio Deus criou os céus e a terra", e é revertido na frase seguinte Genesis 2:4b: "... no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus". Este verso é uma das dez frases de gerações(do hebraico תולדות‎ tôledôt) usadas através do Genesis, que providenciam uma estrutura literária ao livro. Elas normalmente funcionam como cabeçalho ao texto que vem depois, mas a posição desta, a primeira das séries, tem sido assunto de muito debate.

As duas tabelas abaixo mostram as duas narrativas bíblicas da criação comparadas. Para tanto utilizei, como referência, a Bíblia de Jerusalém:


Primeira Narrativa (Gênesis 1:1-2:3)

Segunda Narrativa (Gênesis 2:4-25)
Gênesis 1:25-27 (Humanos foram criados  depois dos outros animais)

Deus (Elohim) fez as feras segundo sua espécie, os animais domésticos segundo sua espécie e todos os répteis do solo segundo sua espécie, e Deus (Elohim) viu que isso era bom. E Deus (Elohim) disse: Façamos o homem à nossa imagem... Deus (Elohim) criou o homem à sua imagem.




Gênesis 1:27 (O primeiro homem e a primeira mulher foram criados simultaneamente)


E Deus (Elohim) criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus (Elohim) ele o criou, homem e mulher ele os criou.
Gênesis 2: 18-19 (Humanos foram criados  antes dos outros animais)

Iahweh Deus disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda. Iahweh Deus modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse.



Gênesis 2: 18-22 (O homem foi criado primeiro, então os animais, e então a mulher foi criada da costela do homem)


Então Iahweh Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem. Iahweh Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem.



Referência Bibliográfica:
 

The Pentateuch A Story of Beginnings, Paula Gooder, T&T Clark Approaches To Biblical Studies, 2005

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Vulgata, a Bíblia Latina

A Vulgata é a translação latina da bíblia do fim do quarto século que se tornou, durante o décimo sexto século, a versão latina oficialmente promulgada da Igreja Católica da Bíblia.

A Vulgata foi oficializada como Bíblia Latina da Igreja Católica como uma consequência do Concílio de Trento (1545-1563), quando, em face da Reforma Protestante, se tornou evidente que era necessária uma referência de autoridade para a escritura.

A tradução é um trabalho majoritário de São Jerônimo, que, em 382, foi comissionado pelo papa Dâmaso I para revisar a Vetus Latina ("Latim Antigo"), que era uma coleção de textos bíblicos em latim então em uso pela Igreja. Uma vez publicada, a Vulgata foi amplamente adotada, acabou eclipsando a  Vetus Latina e, por volta do século 13, se tornou conhecida como a  "versio vulgata(a versão comumente usada) ou, mais simplesmente, como a "vulgata".

Autoria da Vulgata

A Vulgata tem um texto composto que não é um trabalho inteiramente de Jerônimo. Seus componentes incluem:

● A tradução independente de Jerônimo do hebraico: os livros da Bíblia Hebraica, usualmente não incluindo sua tradução dos Salmos. Isto foi completado em 405.
● Tradução do grego de Teodócio por Jerônimo: As três adições ao livros de Daniel; Canção das Três Crianças, História de Susana e Bel e o Dragão. A Canção das Três Crianças foi retida dentro da narrativa de Daniel, enquanto que as outras duas adições Jerônimo colocou no fim do livro.
● Translação da Septuaginta por Jerônimo: Adições à Ester. Jerônimo reuniu todas estas adições juntas no final do livro de Ester.
● Tradução da Septuaginta Hexaplar por Jerônimo: sua versão galicana (Versio Gallicana ou Psalterium Gallicanum) do livro de Salmos. As revisões hexapláricas de Jerônimo de outros livros do Antigo Testamento continuaram a circular na Itália por muitos sécuos, mas apenas Jó e fragmentos de outros livros sobreviveram.
● Tradução livre de Jerônimo de uma versão aramaica secundária: Tobias e Judite
● Revisão de Jerônimo da Vetus Latina, corrigida com referência aos mais antigos manuscritos gregos disponíveis: os Evangelhos.
Vetus Latina, mais ou menos revisadas por uma pessoa ou pessoas desconhecidas: Baruque, Carta de Jermias, 3 Esdras, Atos, Epístolas e o Apocalipse.
● Vetus Latina, amplamente não revistos: Epístola aos Laodicenses, Oração de Manassés, 4 Esdras, Sabedoria ou Sirácida, Eclesiástico e 1 e 2 Macabeus.